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#Resenha: A Resposta – Kathryn Stockett

Terminei de ler neste final de semana o incrível A Resposta, de Kathryn Stockett. Talvez você não reconheça o título de cara, mas provavelmente já assistiu ou ouviu falar de sua adaptação para o cinema, que recebeu o título Histórias Cruzadas. O filme estreou, nos Estados Unidos, em agosto de 2011 e foi indicado ao Oscar de melhor filme, em 2012.

O livro tem como plano de fundo a pequena cidade de Jackson, no Mississippi, no início da década de 60. A narrativa é dividida entre três personagens: Skeeter, uma jovem branca que acabou de se formar na universidade e sonha em ser escritora e jornalista, Aibileen e Minny, duas empregadas negras que trabalham em casas da cidade.

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Skeeter, Minny e Aibileen

Aibileen teve eu desistir da escola na sétima série, para começar a trabalhar como empregada na casa de famílias brancas da região e ajudar em sua casa. Desde então cuidou de dezessete bebês. Apesar da maioria das empregadas passarem praticamente a vida toda em uma casa, Aibileen mudava constantemente de trabalho, dizendo que era melhor com crianças bem pequenas, praticamente uma especialista. Na verdade, ela se mudava quando as crianças que ela tanto amava e cuidava, passavam a enxergá-la de maneira diferente, pela cor de sua pele.

“Quando eu disse pra minha professora da sétima série que não ia voltar pra escola porque precisava ajudar a minha mãe, dona Ross quase chorou. “Você é a mais esperta da turma, Aibileen”, disse ela. “E o único jeito de você continuar esperta é ler e escrever todos os dias.” Então, comecei a anotar as minhas orações, em vez de dizer elas em voz alta. Mas ninguém mais me chamou de esperta.”

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O filho de Aibileen, Treelore, era seu maior motivo de orgulho. Vivia lendo e havia começado a escrever um livro sobre como era ser um homem negro que vivia e trabalhava no Mississippi. Um noite, enquanto trabalhava no moinho, escorregou na plataforma de carregamento e foi atropelado por um trator. O relato da dor que Aibileen sentiu e do descaso com que trataram seu filho é uma das coisas mais doloridas que já li.

“Quando fiquei sabendo, ele tava morto. Foi nesse dia que todo o meu mundo ficou preto. O ar parecia preto, o sol parecia preto. Fiquei deitada na cama, olhando pras paredes pretas da minha casa. Minny vinha todo santo dia ver se eu ainda tava respirando, me dava comida pra me manter viva. Levei três meses pra olhar de novo pela janela, pra ver se o mundo ainda tava no lugar. Fiquei surpresa quando vi que a vida do meu filho tinha parado, mas o mundo não.”,/p>

“Na nossa quinta sessão, Aibileen lê para mim sobre o dia em que Treelore morreu. Ela lê sobre como o corpo quebrado de Treelore foi jogado na caçamba de uma picape pelo mestre de obras. — E então largaram ele no hospital dos negros. Foi isso que a enfermeira me contou, a enfermeira que tava lá fora na hora. Rolaram ele pra fora da caçamba e os brancos foram embora. — Aibileen não chora, apenas deixa um tempo se passar enquanto eu olho para a máquina de escrever, e ela, para as lajotas escuras e gastas.”

Cinco meses após a morte de seu filho, Aibileen vai trabalhar na casa da Srª Leefolt, cuidando de sua filha, Mae Mobley. As duas criam laços muito fortes, especialmente porque Elizabeth, mãe de Mae, não demonstra nenhum afeto pela menina.

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É na casa dos Leefolt que Aibileen e Skeeter começam a estabelecer um vínculo. Em sua busca por uma carreira como jornalista, Skeeter é aconselhada por uma editora de Nova Iorque a buscar um emprego, qualquer emprego, em que pudesse adquirir experiência e, neste período, começar a escrever sobre coisas que lhe incomodam, mas que ninguém mais parece se importar. Ela, então, consegue uma vaga no jornal local para escrever sobre…cuidados domésticos. Além de ter tido uma empregada, Constantine, desde pequena, Skeeter não é como a maioria de suas amigas. Seus planos não têm casamento e filhos como prioridade. Portanto, ela não sabe absolutamente nada sobre como cuidar de uma casa. Skeeter amava Constantine como uma verdadeira mãe e isso nunca mudou. Não havia barreiras no relacionamento entre elas. Mas quando Skeeter retorna da faculdade descobre que Constantine havia se demitido e ido embora da cidade. A história toda lhe parece muito estranha. Afinas, elas se correspondiam praticamente toda semana. Com certeza, Constantine teria lhe avisado. E a recusa de todos em comentar o assunto só lhe confirma a certeza de que algo está errado.

Elizabeth, Skeeter e Hilly eram amigas desde o colégio. Foram juntas para a faculdade e só tomaram caminhos um pouco diferentes quando Hilly e Elizabeth desistiram da faculdade para se casar. Mesmo assim, com a volta de Skeeter para a cidade, as três se reúnem novamente. E Skeeter pede a ajuda de Aibeleen, empregada de Elizabeth, para escrever sua coluna.

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Mas a relação das três amigas começa a sofrer grandes abalos. Diferenças que antes não eram percebidas, passam a ficar evidentes. Uma crise que tem seu auge com o grande projeto de Hilly, que Skeeter se recusa a publicar no jornal da Liga, de que fazem parte: o Projeto de Higiene para Empregadas Domésticas. No Mississippi, tudo era separado entre negros e brancos. Havia bairros específicos, as empregadas não se sentavam na mesma mesa que suas patroas, não utilizavam os mesmos talheres e não podiam dividir…os mesmos banheiros.

“Na sala sobre a história do Mississippi, procuro qualquer coisa que fale remotamente de relações inter-raciais. Encontro apenas livros sobre a Guerra Civil, mapas e velhos catálogos telefônicos. Eu me equilibro nas pontas dos pés para ver o que está na prateleira mais alta. É aí que enxergo um livreto, deitado de lado em cima do Mississippi River Valley Flood Index. Uma pessoa de tamanho normal nunca o teria visto. Puxo-o para baixo, para ver a capa. O livreto é fino, impresso em papel vegetal, um pouco amassado, encadernado com grampos. “ Compilation of Jim”“ Crow Laws of the South”, diz a capa. Abro o livro, que estala e faz um pouco de barulho. O livreto é simplesmente uma lista de leis dizendo o que pessoas de cor podem e não podem fazer em vários estados sulistas. Passo os olhos pela primeira página, intrigada sobre a razão de isso estar aqui. As leis não são nem ameaçadoras nem amigáveis, apenas citam os fatos: Ninguém pode solicitar que uma mulher branca amamente em alas ou quartos onde haja homens negros. Será considerado ilegal que um branco se case com qualquer pessoa que não seja branca. Qualquer casamento que viole esta seção será considerado nulo. Nenhum barbeiro de cor poderá trabalhar para mulheres ou meninas brancas. O oficial encarregado não poderá enterrar qualquer pessoa de cor no solo usado para o enterro de pessoas brancas. Livros não deverão ser trocados entre escolas de brancos e escolas de gente de cor, mas deverão continuar sendo usados pela raça que primeiro os utilizou. Leio quatro das vinte e cinco páginas, estupefata com a quantidade de leis que existem para nos separar. Negros e brancos não podem partilhar bebedouros, cinemas, banheiros públicos, estádios, cabines telefônicas, espetáculos de circo. Negros não podem usar a mesma farmácia nem comprar selos no mesmo guichê que eu. Penso em Constantine, na vez em que minha família a levou para Memphis, e a estrada foi totalmente lavada pela chuva, mas tivemos de seguir adiante, pois sabíamos que os hotéis não a admitiriam. Penso em como ninguém no carro falou nada. Todos nós sabemos dessas leis, vivemos aqui, mas não falamos a respeito delas. Essa é a primeira vez que as vejo escritas.”

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E é neste momento que a ideia surge na mente de Skeeter, um livro em que as empregadas contariam sua versão de como é viver e trabalhar em Jackson. Mas esta ideia, em si, é perigosa para todos os envolvidos. Tanto Skeeter quanto as empregas, se alguma delas aceitasse participar, correriam o risco de serem presas. Além de casos de violência registrados a cada dia contra pessoas negras que “ousavam” reclamar ou tentar mudar algo.

Aibileen é a primeira a ser convidada para o projeto. Depois, Minny, sua melhor amiga e uma personagem sensacional. Com o passar do tempo, vamos conhecendo as histórias destas grandes mulheres, da sua relação de amor e ódio com as famílias para que trabalham, como é cuidar dos filhos de seus patrões, enquanto seus próprios são criados por outras pessoas. E como estas crianças que criaram e amaram, na maioria das vezes, se transformam em seus pais.

O clima de medo e incerteza pode ser sentido a cada página. Cada um dos personagens nos proporciona emoções extremas: amor, ódio, compaixão. Um tapa na cara, nos mostrando um pouco da luta que já foi enfrentada contra o preconceito.

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Livro obrigatório!!!

“— Bem — respirei fundo. — Eu gostaria de escrever sobre isso, mostrando o ponto de vista das empregadas. As mulheres de cor daqui. —Tentei imaginar o rosto de Constantine, o de Aibileen. — Elas criam uma criança branca, então, vinte anos depois, a criança se torna seu empregador. É essa ironia, nós as amamos e elas nos amam, e ainda assim… — Engoli a saliva, com a voz tremendo. — Sequer permitimos que usem o banheiro da casa. Mais uma vez, silêncio. — E — me senti compelida a continuar — todo mundo sabe o que pensam os brancos, a figura glorificada de Mammy, que dedica toda a vida a uma família branca. Margaret Mitchell já fez isso. Mas ninguém nunca perguntou a Mammy o que ela pensava disso tudo. — Suor escorria pelo meu peito, molhando minha blusa de algodão. — Então você quer mostrar um lado que nunca foi examinado — disse a sra. Stein. — Sim. Porque ninguém nunca fala a respeito disso. Ninguém nunca fala sobre nada, aqui.”

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