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#Resenha: A Mulher Calada – Janet Malcolm

“Como o leitor sabe, eu também escolhi um lado — o dos irmãos Hughes e Anne Stevenson — e também recorro a minhas simpatias e antipatias em apoio de minha escolha. Minha narrativa sobre Rose tem espinhos; minha tesoura folheada de prata resiste a custo à tentação de podá-la. Em outro contexto — ou seja, se eu tivesse lido The haunting of Sylvia Plath como um livro sobre um tema em que não investi coisa alguma —, ele não teria despertado em mim nada além de admiração, já que tendo a apoiar os novos teóricos da literatura em seu debate com os tradicionalistas. Mas no debate Plath-Hughes minha simpatia está com os irmãos Hughes, e assim, como um advogado apresentando uma defesa que sabe ser fraca mas ainda assim considera justa por alguma razão obscura, eu me encouraço para resistir aos atrativos da testemunha mais forte e plausível da oposição.”

A Mulher Calada – Janet Malcolm

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Bom, este trecho do livro já deixa bem claro que esta não é uma biografia de Sylvia Plath. Apesar de trazê-la na capa e fazer dela o centro de sua sinopse:

“A Mulher Calada – Uma das poetas mais originais do século XX, Sylvia Plath se suicidou no inverno de 1963, poucos meses depois de se separar do marido, o também poeta Ted Hughes. Esse gesto último selou, em torno de sua vida e sua obra, um campo de forças tão poderoso que ainda hoje continua a opor não só os vivos aos mortos, como todos os que sobreviveram à tragédia.  Neste livro, Janet Malcolm se debruça sobre todas as biografias já escritas sobre Sylvia Plath, além de adentrar um intrincado mundo de cartas, arquivos e delicadas situações familiares. Dotada de elegância e senso narrativo excepcionais, Malcolm mescla psicanálise, poesia, biografia e reportagem, num ensaio de amplitude e profundidade surpreendentes, capaz de envolver o leitor com o magnetismo de uma trama policial.”

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Como a autora bem explica em um texto logo antes deste que escolhi para começar esta resenha, quando traz uma citação do livro de Jacqueline Rose: Como uma criança envolvida num caso terrível de divórcio entre seus pais, tudo que foi escrito sobre a vida de Sylvia Plath, tanto por ela própria quanto pelos que a conheceram, torna imperioso para cada um de nós — e ao mesmo tempo nos impossibilita — escolher um lado. Em quem devemos acreditar? Como podemos saber? Qual é a verdade do caso? Por trás do interesse próprio dos protagonistas, desenrola-se um drama sobre os limites e os fracassos do conhecimento e do autoconhecimento. Podemos tentar chegar a uma sentença decisiva, como ocorre nos casos de divórcio, mas só se aceitarmos as formas falsas e nocivas de certeza pelas quais essas sentenças são tão famosas.”, ao que Janet atalha: “O que Jacqueline Rose deixa fora de seu relato (e seus colegas da academia deixaram fora do relato em seus textos ansiosos e retorcidos sobre outro terrível caso de divórcio, o de Paul de Man e seu jornalismo de tempos de guerra) é a impossibilidade psicológica, para um escritor, de deixar de escolher um dos lados. “Torna imperioso para cada um de nós”, sim. Mas “nos impossibilita”, não. Na falta de alguma certeza “falsa e nociva”, é humanamente impossível escrever sobre qualquer assunto. Como o assassino, o escritor precisa de um motivo.”, isto também se prova verdade sobre o leitor. Não há como não escolher um lado na história de Sylvia Plath e Ted Hughes. E meu lado escolhido foi o de Sylvia. Fica clara então minha decepção ao ver que estava lendo um longo texto em “defesa” de Anne Stevenson e Ted e Olwyn Hughes.

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Anne Stevenson foi uma contemporânea de Janet Malcolm em sua universidade. Era cercada de uma aura de confiança e liberdade e já havia ganhado um prêmio literário sério naquela época. Portanto, apesar de não terem contato, figurava no imaginário de Janet como uma inspiração. Escreveu anos depois Correspondences, um livro de poemas que teve grande aceitação do público. Se Sylvia não tivesse se suicidado, teria praticamente a mesma idade de Janet e Anne. Como Anne, havia saído dos EUA e se mudado para a Inglaterra, após o casamento e havia encarado o mesmo choque cultural. Talvez por estas semelhanças entre as duas, Anne Stevenson foi convidada, em 1985, para escrever um ensaio biográfico de 100 páginas para uma série da Penguin, Vida das Mulheres Modernas. Quando ela concluiu seu rascunho inicial, resolveu enviar o primeiro e último capítulo para Ted Hughes. Mas, além do fato de Hughes estar no exterior na época, com sua esposa Carol, sua irmã Olwyn era quem realmente se encarregava de tomar a frente, seja como executora do espólio literário de Sylvia, como do contato com os biógrafos que continuavam a surgir.

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O rancor dos irmão Hughes quanto aos biógrafos é palpável e Olwyn é a que mais ruidosamente se expressa a respeito. Mas, quando ela respondeu a Anne, apesar de dizer que achava que ela havia se equivocado em diversas partes, disse que gostara de seu estilo literário e convidou-a para um almoço. Neste encontro, Olwyn lhe entregaria algumas cartas de Dido Merwin escritas para uma das biógrafas de Sylvia, Linda Wagner-Martin, que segundo ela iriam mostrar a Anne uma face completamente diferente de Sylvia.

“Dido Merwin não suportava Sylvia Plath e esperou trinta anos para dizer ao mundo o que achava de sua ex-“amiga”, retratando-a como a mulher insuportável de um mártir paciente e sofredor. Segundo ela, o surpreendente não é que Hughes tenha deixado Sylvia Plath, e sim que a “tenha aguentado por tanto tempo”. Depois da separação, escreve ela, perguntou a Hughes “o que fora mais difícil de suportar durante o tempo que ele e Sylvia ficaram juntos”, e ele revelou que Sylvia Plath, num ataque furioso de ciúme, picara em pedacinhos toda sua obra em andamento no inverno de 1961, bem como seu exemplar das obras de Shakespeare. E Merwin também relembra, como se tivesse acontecido apenas ontem, uma temporada desastrosa que Plath e Hughes passaram com ela e seu então marido, o poeta W. S. Merwin, na chácara que tinham na Dordogne. Sylvia Plath “gastava toda a água quente, servia-se o tempo todo na geladeira (comendo no café o que estava reservado para o almoço etc.) e mudou de lugar todos os móveis do seu quarto”. Criava um clima tão desagradável com sua melancolia (embora nunca perdesse o apetite, assinala Merwin, relatando a malignidade com que viu Sylvia Plath devorar um esplêndido foie gras “como se fosse um simples bolo de carne”) que Hughes acabou encurtando a duração de sua visita. Anne Stevenson foi violentamente criticada por transmitir uma ideia “desequilibrada” de Sylvia Plath ao incluir esse retrato venenoso em sua biografia.”

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Quando se encontraram novamente, Olwyn propôs a Anne que retirasse seu texto da Penguin e o expandisse para uma biografia completa. Olwyn possuía uma pequena agência literária e conduziria as negociações do livro de Anne com as editoras nos EUA e Inglaterra, conseguindo adiantamentos substanciais. Além de dar acesso a Anne à amigos leais de Ted, que iriam lhe contar o que há anos guardavam em silêncio, esperando por um biógrafo de confiança.

“Nesse ínterim, Hughes voltara para a Inglaterra, tendo escrito a Anne uma longa carta sobre os dois capítulos que ela lhe enviara. À diferença das quinze páginas de comentários lacônicos e sarcásticos que enviara a Linda Wagner-Martin depois de ler o manuscrito desta alguns meses antes (“página 201, linha 4: cortar ‘fazendo amor’”; “página 200, linha 6: cortar ‘e cortou… rosto’”; “página 273, linhas 27-28: mencionar esses detalhes ínfimos parece burlesco; eliminar”), a carta de sete páginas que Hughes enviou a Anne era amigável, respeitosa e (considerando sua política reservada) notavelmente generosa em detalhes sobre sua vida com Sylvia Plath. No final, essa carta não foi apenas a primeira, mas também a última que Hughes enviou a Anne enquanto ela escrevia Bitter fame. Na época, porém, atuou como um estímulo poderoso; ser lisonjeada pelas atenções do irmão, além da irmã, tornava a proposta impossível de recusar.”

Olwyn cumpriu o que prometeu a Anne conseguindo adiantamentos, lhe dando acesso a seus amigos, lendo seus esboços e, principalmente, dando acesso a Ted.

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“Anne já compartilhava a opinião de Olwyn, segundo a qual Sylvia Plath era uma poetisa brilhante mas uma pessoa cansativa e detestável, e ela e Olwyn se reuniam na casa desta (àquela altura, Anne vivia em Londres com seu futuro marido, Peter Lucas) e conversavam sobre Sylvia com a espécie de deliciosa má vontade a que nos permitimos com amigos próximos de mentalidade parecida. Com toda a probabilidade, foi essa evidência dos sentimentos negativos de Anne em relação a Sylvia Plath, e não seu “estilo contido e tenso”, que tinha atraído o interesse de Olwyn, fazendo-a crer que finalmente encontrara a biógrafa ideal — a biógrafa capaz de retratar Sylvia Plath de maneira a contrabalançar a imagem idealizada pelos libbers.”

Mas, neste ínterim, Anne resolver viajar aos EUA, para trabalhar melhor em seus capítulos iniciais, utilizando as cartas e arquivos guardados de Sylvia, na Biblioteca Lilly. E foi entre estas cartas que Anne finalmente descobre Sylvia e começa a nutrir por ela uma admiração verdadeira, que até então, não sentia.

“Talvez fosse minha reação ao tom desinibido daquelas cartas, nenhuma das quais fora cortada para seu uso pelos biógrafos e que tratavam todas elas de circunstâncias presentes, ainda não ficcionalizadas, ainda ocupadas em acontecer […]. Senti em Indiana que finalmente encontrara Sylvia Plath; e que gostava mais dela, porque agora eu a conhecia. Voltei a seu diário, que li com uma compreensão renovada […]. Comecei a entender, acho eu, por que ela se transformara numa poetisa extremista, incapaz de concessões. Nenhuma posição intermediária lhe serviria […]. Noite após noite, eu emergia, atarantada, do arcondicionado da biblioteca para a umidade opressiva das noites chuvosas de Indiana. (Eu me esquecera da sensação pesada e pegajosa dos verões do Meio-Oeste.) Vivendo a vida de Sylvia no lugar da minha, experimentei pela primeira vez o sentimento intenso de identificação com minha biografada que a maioria dos biógrafos sente antes mesmo de dar início às suas pesquisas. Compreendi, com tristeza, que eu admirava Sylvia, mas jamais gostara dela. Mesmo antes de começar a trabalhar com Olwyn Hughes, eu já me sentia repelida pela impressão que ela me dava, de uma absorção crua em si mesma e uma ambição agressiva. Agora, pensei, estava começando a vê-la de forma mais clara. Decidi retornar a Londres e recomeçar a trabalhar em Bitter fame desde o início. Dessa vez, estava certa de que poderia produzir uma biografia crítica por mim mesma.”

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Olwyn, obviamente, se interpôs a esta ideia e as duas começaram um longo embate sobre o teor do livro, que teve que ser mediado por um “árbitro”, quando chegou ao ponto das duas não se falarem mais. Mesmo assim, o livro foi lançado e espezinhado pela crítica e público, que podiam notar em cada página que não estava lendo somente a opinião da autora, a presença da censura dos irmãos Hughes era palpável.

Tenho absoluta certeza que o convívio com Sylvia Plath não era nem um pouco fácil. Afinal de contas, ela sofria de depressão há anos e não só por isso, o convívio com um gênio nunca foi descrito por ninguém como fácil.

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“Como a vida de Sylvia Plath, sua obra também está cheia de silêncios ameaçadores. É bela, severa e muito fria. É surrealista, com toda a ameaça do surrealismo e sua recusa a explicar-se. Diante dos poemas de Ariel, sentimo-nos como Olwyn diante da impassibilidade de Sylvia. Sentimo-nos reduzidos à humildade e censurados, como se fôssemos as “pessoas pequenas e socadas” que Sylvia Plath via no hospital ou os herbívoros que descreve em seu poema “Mystic”, “com esperanças tão rasteiras que se sentem confortáveis”. Dizer que Sylvia Plath abusou de seu direito a nossa simpatia não é muito preciso. Ela nunca pede a nossa simpatia; não se rebaixaria a tanto. A voz de sua “verdadeira identidade” é notável por seu tom agudo de desdém — e sua profunda melancolia.”

Mas considerar Olwyn e Ted como mártires, pelo escrutínio que sofreram através dos biógrafos e admiradores de Sylvia também me parece completamente desmedido. Principalmente, quando analisamos o controle que fizeram de sua obra. A cada vez que é citado o controle sobre o espólio literário de Sylvia, não posso deixar de sentir um arrepio de raiva. Afinal de contas, quem são os irmãos Hughes para decidir quais os poemas de Sylvia que podem ser publicados? E mais, se prezam tanto por manter sua intimidade, por que publicar seus diários? Mas, mais que isso, os publicam incompletos, retirando as partes que lhes desagradam. Utilizam as permissões para a citação da obra de Sylvia em suas biografias como moeda de troca com os autores.

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Em um trecho do livro, Janet cita uma carta de Ted à mãe de Sylvia sobre a possibilidade da venda dos direitos de A redoma de Vidro nos EUA:

“Uma carta inédita que Hughes escreveu à sra. Plath sete anos depois da morte de Sylvia nos propõe uma resposta possível. A carta está no arquivo Plath da Biblioteca Lilly, na Universidade de Indiana em Bloomington — uma imensa coleção de cartas escritas e recebidas por Sylvia Plath, além da correspondência da família escrita após a sua morte. (A sra. Plath vendeu sua coleção à Lilly em 1977.) Na carta, datada de 24 de março de 1970, Hughes fala à sra. Plath de uma casa que deseja comprar na costa norte de Devon — “um lugar inacreditavelmente bonito” —, mas para a qual não tem dinheiro. Não quer vender uma casa que acabara de comprar em Yorkshire (“um investimento de primeira”) e nem quer (“por razões, como se diz, sentimentais”) vender Court Green, onde voltou a morar com as crianças depois da morte de Sylvia Plath (e onde mora ainda hoje, com Carol, sua segunda mulher). “Por isso”, diz ele à sra. Plath, “estou tentando liquidar todos os meus outros bens e o que me ocorre é The bell jar.” Ele pergunta à sra. Plath o que ela “acharia de publicar o livro agora nos Estados Unidos”, acrescentando que dali a alguns anos ele “não seria mais muito vendável”, transformando-se numa simples “curiosidade para estudiosos”. A sra. Plath, é claro, tinha horror ao livro e escreveu a Hughes uma carta vigorosa de protesto: preferia que The bell jar não fosse publicado nos Estados Unidos. Mas no final da carta, “de uma pessoa inteligente e madura para outra”, ela acaba cedendo. “Já que o direito de publicação é seu, a decisão também lhe cabe”, diz ela, com uma afetação suspeita. Assim, em 1971, The bell jar foi lançado nos Estados Unidos. A sra. Plath aguentou firme e finalmente exigiu em pagamento sua libra de carne: pediu a Hughes sua permissão para publicar as cartas que Sylvia lhe escrevera. Hughes não tinha como recusar.”

No posfácio da autora, ela esclarece, com trechos de cartas de Ted, que este resolveu não publicar o livro nos EUA, mesmo com a concordância da Sra. Plath e desistiu da compra da casa. Mas logo despois, com a descoberta de uma lei americana que prevê que as obras de um autor americano escritas no exterior perdem o direito de autor, após sete anos da morte deste. Ou seja, se não lançassem, a obra seria publicada do mesmo jeito. Mas tudo isto não muda o teor extremamente comercial da carta originalmente enviada à Sra. Plath.

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O livro é muito bem escrito e apesar de não ser o que esperava nos dá uma boa perspectiva de toda a situação. Em nenhum momento ataca Sylvia e também não deixa de nos mostrar muito sobre Ted. E como tudo na vida tem dois lados, é bom que o livro possa nos apresentar uma perspectiva mais completa. Parece contraditório dizer isto depois de citar meu descontentamento com a defesa dos irmãos Hughes, mas o que não é contraditório em tudo isto? E como diria Nelson Rodrigues: “Na hora de odiar, ou de matar, ou de morrer, ou simplesmente de pensar os homens se aglomeram. (…) A opinião unânime está a um milímetro do erro, do equívoco, da iniquidade. (…) Toda unanimidade é burra. Quem pensa com a unanimidade não precisa pensar.”

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