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#Resenha: Psicose – Robert Bloch

“Mary começou a gritar. A cortina se abriu mais e uma mão apareceu, empunhando uma faca de açougueiro. E foi a faca que, no momento seguinte, cortou o seu grito. E a sua cabeça.”

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Já no começo desta resenha, temos a revelação da morte de uma das personagens principais de Psicose, o romance de Robert Bloch, que revolucionou a maneira de desenvolver um suspense… matando sua mocinha no primeiro terço do livro. Longe de estragar a história, isto só ajudou a construir uma narrativa excepcional.

Psicose conta a história de Norman Bates, gerente de um motel de uma pequena e pacata cidade. Um homem de meia idade, que nunca se casou e que vive com sua mãe dominadora. As coisas se tornam ainda mais complicadas quando uma nova estrada é inaugurada, diminuindo drasticamente o número de carros que passam na frente do motel.

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Norman, então, se torna ainda mais solitário e dependente de sua mãe.

“— Eu bem disse, quando me contaram que a estrada ia ser transferida. A sra. podia ter vendido o motel antes que a notícia da mudança transpirasse. (…) Mas a senhora não me quis ouvir. Nunca me ouve, não é? É só o que a senhora quer, o que a senhora acha. A senhora me deixa doente! (…)

— Então deixo, garoto? Repetiu ela, com suavidade ainda maior. — Deixo-o doente, heim? Pois bem: acho que não. Não, menino: não sou eu quem o deixa doente. (…) A verdade é que lhe falta senso comum. Nunca teve a menor dose de senso comum! Por exemplo, nunca teve o senso comum de sair para sempre desta casa, de arranjar um emprego, de se alistar no Exército… Nem mesmo de arranjar uma namorada…

— A senhora é que não deixou!

— Está certo, Norman: fui eu que não deixei… Mas se você fosse homem, teria feito o que queria. Quis gritar que ela estava errada, mas não pôde.”

Conhecemos, então, Mary Crane. Mary trabalhou por muitos anos em uma agência de seguros. Tem uma vida simples e cuida de sua irmã mais nova, Lila, tentando lhe proporcionar coisas que não teve, como cursar uma faculdade. Mary é noiva de Sam, o dono de uma loja de ferragens, que luta para saldar as dívidas deixadas por seu pai, para que depois possam se casar. Mas, Mary já está muito cansada de esperar. No momento em que começa a perder toda a esperança, surge uma oportunidade tentadora. Um dos clientes da agência paga à seu chefe 40 mil dólares, em dinheiro. E pedem que Mary deposite a quantia no banco. Em um impulso, ela resolve fugir com o dinheiro e encontrar seu noivo para se casar.

"Algumas vezes...nós, deliberadamente, nos colocamos em uma armadilha."

“Algumas vezes…nós, deliberadamente, nos colocamos em uma armadilha.”

Em meio a uma viagem turbulenta, dirigindo o dia todo, ela acaba se perdendo na noite chuvosa e resolve parar para descansar no motel Bates.

“Desligou o motor e esperou. Escutava a monótona pancada de chuva entre as lufadas do vento. Lembrava-lhe a noite em que a mãe morrera, pois chovia assim. E agora a escuridão a cercava. Estava sozinha no meio da treva. De que lhe valia o dinheiro? De que lhe valia Sam? Errara o caminho, estava numa estrada desconhecida… não havia recurso. Cavara sua própria cova e agora tinha de deitar-se nela… Mas por quê pensava assim? Não era cova: era leito. Ainda procurava decifrar isso quando a enorme sombra surgiu da treva e abriu tranquilamente a porta do carro.”

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-Você sai com seus amigos? -O melhor amigo de um garoto é sua mãe.

Mary conhece Norman e durante um jantar ele lhe conta sua história e de sua mãe. E quando ela sugere que ele interne sua mãe em um lugar em que possam tomar conta dela, eles têm uma acalorada discussão. Que termina com Mary voltando ao seu quarto e tomando a decisão de devolver o dinheiro que roubou. Mas ela nunca teve a chance. Acabou sendo assassinada no chuveiro… No que se tornaria uma das cenas mais icônicas do cinema.

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Norman ao descobrir que sua mãe matou Mary, resolve se desfazer do corpo e salvar sua mãe da cadeia. Mas, logo começam as buscas por Mary. Sua irmã, Lila, procura Sam para descobrir se ela foi até ele e um investigador é contratado pela agência para investigar e encontrar o dinheiro.

"Oh, mas ela é inofensiva. Tão inofensiva quanto estes pássaros empalhados."

“Oh, mas ela é inofensiva. Tão inofensiva quanto estes pássaros empalhados.”

O final de Psicose é completamente inesperado e fez do filme de Hitchcock um dos maiores clássicos do cinema. Psicose trata do que há de mais aterrorizante, a natureza humana.

O livro foi inspirado na história de Ed Glein. Morador de um vilarejo, em Wisconsin, Ed entrou para a história como um dos maiores assassinos em série da história. Como o personagem de Norman, Ed era solteiro e recluso e quando seus crimes foram descobertos tinha 51 anos. Além de assassinar mulheres, Ed guardava partes de seus corpos, como lábios, narizes, cabeças e tinha até roupas com a pele de suas vítimas. Apesar de não fazer parte do processo, todos diziam que teve uma relação perturbadora com sua mãe.

"Eu acho que todos nós somos um poco loucos de vez em quando."

“Eu acho que todos nós somos um poco loucos de vez em quando.”

“A fazenda de Gein oferecia um testemunho não só sobre a insondável aptidão do ser humano para a barbárie, mas sobre a capacidade de uma comunidade inteira em negar sua existência. “Não pode acontecer aqui”, insiste a letra satírica de uma canção de Frank Zappa, Help I’m a Rock. O “aqui” em questão é o coração e a mente do ser humano.”

Alfred Hitchcock e os Bastidores de Psicose – Stephen Rebello

Robert Bloch ficou extremamente impressionado quando a história começou a ser publicada nos jornais, mesmo não sabendo de todos os detalhes, afinal muitas coisas eram pesadas demais para serem divulgadas nos anos 50. Ele, então, começou a criar em sua mente o personagem principal de um romance. E, com o passar do tempo, o desenvolvimento de sua criação se mostrou acuradamente de acordo com a história real.

“Quando Bloch percebeu a estranha semelhança entre as revelações dos crimes verdadeiros e seu próprio romance, começou a se pegar encarando sua imagem nos espelhos e pensando sobre si mesmo. “Em outras palavras”, ruminou o escritor, “ao inventar meu personagem cheguei muito perto da personalidade real de Ed Gein. Fiquei horrorizado em pensar como eu podia imaginar tais coisas. E o resultado foi que passei os dois anos seguintes me barbeando de olhos fechados. Eu não queria me olhar no espelho.”

Alfred Hitchcock e os Bastidores de Psicose – Stephen Rebello

Hitchcock comprou os direitos para realizar o filme. Esta decisão desagradou há muitos, desde os executivos da Paramount até os seus colaboradores mais próximos. Mas, o diretor comprou a briga e realizou o filme com um orçamento reduzido e até investindo seu próprio salário na produção. Além disso, comprou o maior número de exemplares do livro, que sua equipe conseguiu encontrar, para que o final não fosse revelado previamente e o filme perdesse o impacto.

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O filme supera em muito o livro. Coisa rara de acontecer! Muito bem construído e com uma tensão crescente e palpável. Possui cenas primorosas, como quando Mary está no carro, com o dinheiro, pronta para deixar a cidade e é avistada por seu chefe.

O filme e o livro são imperdíveis! Não deixem de conferir!

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“Eles vão ver e vão saber, e irão dizer: Por que? Ela não machucaria uma mosca…”