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#Resenha: Alfred Hitchcock e os Bastidores de Psicose – Stephen Rebello

“O cinema deveria ser considerado mais forte do que a razão.”

Alfred Hitchcock

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Terminada a leitura do incrível livro de Stephen Rebello, Alfred Hitchcock e os Bastidores de Psicose. E que leitura deliciosa foi esta! Stephen teve a honra de ser a última pessoa a entrevistar o diretor. Deste fato, misturado com sua paixão por Psicose, veio a ideia de escrever um livro sobre os bastidores do filme.

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Quando Hitchcock comprou os direitos do livro de Robert Bloch não imaginava as dificuldades que enfrentaria em sua produção e muito menos o sucesso estrondoso de bilheteria e posteriormente de crítica que o filme teria.

Apesar de já ter em seu currículo quarenta e seis filmes e três temporadas de sua bem-sucedida série de TV, Alfred Hitchcock Presents, era um momento delicado para o diretor, que a despeito do sucesso de seu último filme, Intriga Internacional, ainda era assombrado pelo fracasso de bilheteria de Um Corpo que Cai, baseado no livro de Pierre Boileau e Thomas Narcejac, D’entre les morts. A mesma dupla havia escrito Celle qui n’était plus, cujos direitos foram comprados por Henri-Georges Clouzot, que o transpôs para o filme As Diabólicas, sucesso de público e crítica. Tudo isto foi ainda mais doloroso para Hitch, pois ele tentara comprar os direitos de As Diabólicas e perdeu para Clouzot por algumas horas.

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Psicose viria a ser o quinto e último filme do contrato de Hitchcock com a Paramount. Os diretores do estúdio porém ficaram perplexos com a ideia. Não viram na trama nenhum requinte, além de temas polêmicos como o travestismo do personagem principal e a relação incestuosa de Norman e sua mãe.

“Ainda assim, mesmo num momento de relativa prosperidade, para as altas patentes da Paramount, Hitchcock e Psicose não pareciam uma boa combinação. Haviam vazado nas conversas de corredor do estúdio os rumores de que o diretor queria tentar “algo diferente”; a mesma motivação que tinha resultado em O homem errado na Warner Bros. e em O terceiro tiro e Um corpo que cai na Paramount — três fracassos de bilheteria.”

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Hitchcock não estava acostumado a receber um não como resposta, assim quando o estúdio negou o financiamento para seu filme, ele resolveu pagar de seu próprio bolso, utilizando as instalações da Universal-International. Restando para a Paramount apenas a distribuição do filme.

Esta não foi a única recusa que seu projeto recebeu, além de ter que trabalhar com um orçamento muito reduzido, vários de seus colaboradores mais próximos se afastaram do projeto.

Mas o desejo de inovar era maior que todas as dificuldades para o diretor. Finalmente, Hitch havia achado um material que realmente lhe interessava.

“O cineasta não estava brincando totalmente quando disse à imprensa: “Se eu dirigisse Cinderela, o público iria esperar um cadáver aparecer na carruagem.” Ou quando comentou com pesar sobre a armadilha na qual havia se aprisionado: “Estilo é autoplágio.” H. N. Swanson, amigo de Hitchcock e agente de autores de suspense como Raymond Chandler e Elmore Leonard, explica da seguinte forma: “Hitch nunca procurava casualmente ‘alguma coisa diferente’. Ele era incansável.” Outro parceiro de longa data do diretor, o agente Michael Ludmer, corroborou: “Nós procurávamos de tudo — peças, romances, contos, recortes de jornal. Mistérios do tipo ‘quem matou?’ estavam fora de questão, e ele desconfiava de ficção científica, do sobrenatural ou de qualquer coisa que tivesse a ver com criminosos profissionais. Como não dava para adivinhar qual seria a pequena faísca que acenderia seu entusiasmo, era terrivelmente trabalhoso coletar material para Hitch.” E foi aí que entrou Psicose.”

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O livro nos leva, passo a passo, por todas as etapas do filme, desde a escolha do roteirista, Joseph Stefano; e do elenco, com o formidável Anthony Perkins e Janet Leigh; as filmagens, com todas as suas particularidades e dificuldades técnicas; as polêmicas que surgiram à partir dos anos sobre a direção da cena do chuveiro; até a escolha da trilha sonora, corte final do filme e divulgação.

Neste processo, conhecemos uma infinidade de personagens brilhantes envolvidos na produção deste filme e de outras grandes obras do cinema. Além de nos dar uma nova perspectiva sobre o diretor: seus defeitos, desafetos, protegidos e sua ferrenha autocrítica.

“Não gosto de conflitos”, disse uma vez o cineasta, “mas não vou sacrificar meus princípios. Estabeleci um limite no meu trabalho. Abomino pessoas que dão menos do que têm de potencial. Isso é fraude (…) e pessoas assim serão excluídas.”

É interessante também perceber que além de um diretor genial, Hitchcock era excelente na divulgação de seus filmes. Trabalhando com um set totalmente fechado e tendo feito todos os participantes do filme professarem um juramento de não divulgar nenhuma de suas surpresas, Hitchcock conseguiu manter o suspense ao máximo. Para isto, até mesmo criou um manual sobre como exibir o filme para os gerentes de cinemas de todo o país. O ponto alto da divulgação foi o trailer de Psicose, onde Hitch nos apresenta o Motel Bates.

“Hitchcock, porém, como mestre da autopromoção, providenciava oportunidades para fotos “improvisadas” assim que surgia uma deixa. O diretor de arte Robert Clatworthy recordou: “Ao longo da filmagem, ele manteve sempre visível uma cadeira com ‘Sra. Bates’ escrito atrás, bem grande. O humor de Hitchcock era assim. Por Deus, a Sra. Bates era uma pessoa real, então tinha de ter uma cadeira.” Num final de tarde, o diretor se acomodou nessa cadeira — uma foto premeditada (e devidamente registrada) como um agrado para os divulgadores do estúdio; mais tarde, todos os principais nomes do elenco, de Martin Balsam a Janet Leigh, também foram fotografados na mesma cadeira. Exceto, claro, Anthony Perkins.”

Mesmo com toda a falta de suporte da Paramount, conseguiu montar uma campanha genial, que se reflete na bilheteria do filme. Psicose custou 800 mil dólares e arrecadou 60 milhões em todo o mundo.

“Intermináveis reprises, imitações e paródias tiraram um pouco do gume afiado de Psicose, principalmente para gerações que aprenderam a confundir jatos de sangue, montagens frenéticas e trilhas sonoras mecânicas com o verdadeiro suspense. Em contraste com as séries Sexta-feira 13 ou A hora do pesadelo e suas muitas crias, a comoção causada pelo filme de Hitchcock pode soar hoje tão incompreensível quanto uma velha série dos primórdios da TV ou um filme mudo. Quem foi criado com Jason e Freddy pode ficar perplexo com o fato de o público de 1960 ter gritado por causa de Norman. Entretanto, se eles tiverem muita sorte, talvez apareça um equivalente contemporâneo de Alfred Hitchcock que os pegue de surpresa e mate de medo os espectadores de filmes dos Estados Unidos mais uma vez.”

Um livro imperdível para quem ama cinema e, principalmente, para os apaixonados por Psicose!

O filme Hitchcock, de 2012, é uma adaptação do livro de Stephen Rebello. Com Anthony Hopkins, no papel de Hitchcock, o filme explora principalmente a relação do diretor com sua esposa e grande colaboradora, Alma. Aspecto em que diverge muito do livro. Não que isto seja ruim. Muito pelo contrário, é o complemento perfeito para o livro de Stephen Rebello.

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Apesar de nunca ter superado o imenso sucesso de Psicose, Hitchcock ainda produziu seis filmes, dentre eles o maravilhoso Os Pássaros, que está na minha lista de favoritos do diretor, junto com Festim Diabólico e Janela Indiscreta. Ver esta referência ao final do filme Hitchcock foi delicioso!

“E respondeu: ‘Eu sempre quero que o público pense o que o personagem está pensando. No momento em que eu perder uma pessoa da plateia, perco todas.’ Então percebi que essa era uma das maneiras de ele manter seus espectadores na beirada da poltrona, ansiosos por absorver todas essas pequenas informações.”

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#Resenha: Psicose – Robert Bloch

“Mary começou a gritar. A cortina se abriu mais e uma mão apareceu, empunhando uma faca de açougueiro. E foi a faca que, no momento seguinte, cortou o seu grito. E a sua cabeça.”

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Já no começo desta resenha, temos a revelação da morte de uma das personagens principais de Psicose, o romance de Robert Bloch, que revolucionou a maneira de desenvolver um suspense… matando sua mocinha no primeiro terço do livro. Longe de estragar a história, isto só ajudou a construir uma narrativa excepcional.

Psicose conta a história de Norman Bates, gerente de um motel de uma pequena e pacata cidade. Um homem de meia idade, que nunca se casou e que vive com sua mãe dominadora. As coisas se tornam ainda mais complicadas quando uma nova estrada é inaugurada, diminuindo drasticamente o número de carros que passam na frente do motel.

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Norman, então, se torna ainda mais solitário e dependente de sua mãe.

“— Eu bem disse, quando me contaram que a estrada ia ser transferida. A sra. podia ter vendido o motel antes que a notícia da mudança transpirasse. (…) Mas a senhora não me quis ouvir. Nunca me ouve, não é? É só o que a senhora quer, o que a senhora acha. A senhora me deixa doente! (…)

— Então deixo, garoto? Repetiu ela, com suavidade ainda maior. — Deixo-o doente, heim? Pois bem: acho que não. Não, menino: não sou eu quem o deixa doente. (…) A verdade é que lhe falta senso comum. Nunca teve a menor dose de senso comum! Por exemplo, nunca teve o senso comum de sair para sempre desta casa, de arranjar um emprego, de se alistar no Exército… Nem mesmo de arranjar uma namorada…

— A senhora é que não deixou!

— Está certo, Norman: fui eu que não deixei… Mas se você fosse homem, teria feito o que queria. Quis gritar que ela estava errada, mas não pôde.”

Conhecemos, então, Mary Crane. Mary trabalhou por muitos anos em uma agência de seguros. Tem uma vida simples e cuida de sua irmã mais nova, Lila, tentando lhe proporcionar coisas que não teve, como cursar uma faculdade. Mary é noiva de Sam, o dono de uma loja de ferragens, que luta para saldar as dívidas deixadas por seu pai, para que depois possam se casar. Mas, Mary já está muito cansada de esperar. No momento em que começa a perder toda a esperança, surge uma oportunidade tentadora. Um dos clientes da agência paga à seu chefe 40 mil dólares, em dinheiro. E pedem que Mary deposite a quantia no banco. Em um impulso, ela resolve fugir com o dinheiro e encontrar seu noivo para se casar.

"Algumas vezes...nós, deliberadamente, nos colocamos em uma armadilha."

“Algumas vezes…nós, deliberadamente, nos colocamos em uma armadilha.”

Em meio a uma viagem turbulenta, dirigindo o dia todo, ela acaba se perdendo na noite chuvosa e resolve parar para descansar no motel Bates.

“Desligou o motor e esperou. Escutava a monótona pancada de chuva entre as lufadas do vento. Lembrava-lhe a noite em que a mãe morrera, pois chovia assim. E agora a escuridão a cercava. Estava sozinha no meio da treva. De que lhe valia o dinheiro? De que lhe valia Sam? Errara o caminho, estava numa estrada desconhecida… não havia recurso. Cavara sua própria cova e agora tinha de deitar-se nela… Mas por quê pensava assim? Não era cova: era leito. Ainda procurava decifrar isso quando a enorme sombra surgiu da treva e abriu tranquilamente a porta do carro.”

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-Você sai com seus amigos? -O melhor amigo de um garoto é sua mãe.

Mary conhece Norman e durante um jantar ele lhe conta sua história e de sua mãe. E quando ela sugere que ele interne sua mãe em um lugar em que possam tomar conta dela, eles têm uma acalorada discussão. Que termina com Mary voltando ao seu quarto e tomando a decisão de devolver o dinheiro que roubou. Mas ela nunca teve a chance. Acabou sendo assassinada no chuveiro… No que se tornaria uma das cenas mais icônicas do cinema.

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Norman ao descobrir que sua mãe matou Mary, resolve se desfazer do corpo e salvar sua mãe da cadeia. Mas, logo começam as buscas por Mary. Sua irmã, Lila, procura Sam para descobrir se ela foi até ele e um investigador é contratado pela agência para investigar e encontrar o dinheiro.

"Oh, mas ela é inofensiva. Tão inofensiva quanto estes pássaros empalhados."

“Oh, mas ela é inofensiva. Tão inofensiva quanto estes pássaros empalhados.”

O final de Psicose é completamente inesperado e fez do filme de Hitchcock um dos maiores clássicos do cinema. Psicose trata do que há de mais aterrorizante, a natureza humana.

O livro foi inspirado na história de Ed Glein. Morador de um vilarejo, em Wisconsin, Ed entrou para a história como um dos maiores assassinos em série da história. Como o personagem de Norman, Ed era solteiro e recluso e quando seus crimes foram descobertos tinha 51 anos. Além de assassinar mulheres, Ed guardava partes de seus corpos, como lábios, narizes, cabeças e tinha até roupas com a pele de suas vítimas. Apesar de não fazer parte do processo, todos diziam que teve uma relação perturbadora com sua mãe.

"Eu acho que todos nós somos um poco loucos de vez em quando."

“Eu acho que todos nós somos um poco loucos de vez em quando.”

“A fazenda de Gein oferecia um testemunho não só sobre a insondável aptidão do ser humano para a barbárie, mas sobre a capacidade de uma comunidade inteira em negar sua existência. “Não pode acontecer aqui”, insiste a letra satírica de uma canção de Frank Zappa, Help I’m a Rock. O “aqui” em questão é o coração e a mente do ser humano.”

Alfred Hitchcock e os Bastidores de Psicose – Stephen Rebello

Robert Bloch ficou extremamente impressionado quando a história começou a ser publicada nos jornais, mesmo não sabendo de todos os detalhes, afinal muitas coisas eram pesadas demais para serem divulgadas nos anos 50. Ele, então, começou a criar em sua mente o personagem principal de um romance. E, com o passar do tempo, o desenvolvimento de sua criação se mostrou acuradamente de acordo com a história real.

“Quando Bloch percebeu a estranha semelhança entre as revelações dos crimes verdadeiros e seu próprio romance, começou a se pegar encarando sua imagem nos espelhos e pensando sobre si mesmo. “Em outras palavras”, ruminou o escritor, “ao inventar meu personagem cheguei muito perto da personalidade real de Ed Gein. Fiquei horrorizado em pensar como eu podia imaginar tais coisas. E o resultado foi que passei os dois anos seguintes me barbeando de olhos fechados. Eu não queria me olhar no espelho.”

Alfred Hitchcock e os Bastidores de Psicose – Stephen Rebello

Hitchcock comprou os direitos para realizar o filme. Esta decisão desagradou há muitos, desde os executivos da Paramount até os seus colaboradores mais próximos. Mas, o diretor comprou a briga e realizou o filme com um orçamento reduzido e até investindo seu próprio salário na produção. Além disso, comprou o maior número de exemplares do livro, que sua equipe conseguiu encontrar, para que o final não fosse revelado previamente e o filme perdesse o impacto.

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O filme supera em muito o livro. Coisa rara de acontecer! Muito bem construído e com uma tensão crescente e palpável. Possui cenas primorosas, como quando Mary está no carro, com o dinheiro, pronta para deixar a cidade e é avistada por seu chefe.

O filme e o livro são imperdíveis! Não deixem de conferir!

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“Eles vão ver e vão saber, e irão dizer: Por que? Ela não machucaria uma mosca…”