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#Resenha: O Iluminado – Stephen King

“Era também nesse apartamento que se achava, encostado à parede oeste, um gigantesco relógio de ébano. Seu pêndulo oscilava de um lado para o outro com um bater surdo, pesado, monótono; quando o ponteiro dos minutos completava o circuito do mostrador e o relógio ia dar as horas, de seus pulmões de bronze brotava um som claro, alto, grave e extremamente musical, mas em tom tão enfático e peculiar que, ao final de cada hora, os músicos da orquestra se viam obrigados a interromper momentaneamente a apresentação para escutar-lhe o som; com isso os dançarinos forçosamente tinham de parar as evoluções da valsa e, por um breve instante, todo o alegre grupo mostrava-se perturbado; enquanto ainda soavam os carrilhões do relógio, observava-se que os mais frívolos empalideciam e os mais velhos e serenos passavam a mão pela teste, como se estivessem num confuso devaneio ou meditação. Mas, assim que os ecos desapareciam interiormente, risinhos levianos logo se riam do próprio nervosismo e insensatez e, em sussurros, diziam uns aos outros que o próximo soar de horas não produziria neles a mesma emoção; mas, após um lapso de sessenta minutos (que abrangem três mil e seiscentos segundos do tempo que voa), quando o relógio dava novamente as horas, acontecia a mesma perturbação e idênticos tremores e gestos de meditação de antes.”

A Máscara da Morte Rubra – Edgar Allan Poe

Com O Iluminado, fiz o caminho inverso: assisti primeiro e só li depois de um bom tempo. O filme se tornou o meu preferido de terror, sem sombra de dúvidas. Mas logo descobri que Stephen King odiou a adaptação para o cinema de Stanley Kubrick. Portanto, cheguei até a pensar, que quando lesse, continuaria a preferir o filme. Mas, na verdade, adorei o livro! Cheguei à conclusão de que os dois são brilhantes, mesmo tendo diferenças significativas, sim, entre si.

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Terminei a releitura de O Iluminado ontem à noite. Havia lido pela primeira vez há uns cinco anos e pensei: bem, desta vez vai ser mais tranquilo. Ledo engano, meus caros! O livro conseguiu, novamente, me gelar até os ossos. Ler Stephen King é uma verdadeira experiência. Ele consegue te transportar inteiramente para uma situação. Você realmente entra na mente dos personagens e a tensão vai aumentando de uma forma, que se torna praticamente insuportável no final.

O Iluminado conta a história da família Torrance: Jack, Wendy e seu filho Danny. Danny nasceu com o rosto envolvido no saco amniótico e sua mãe nunca se esqueceu disso, dizem que crianças assim possuem sexto sentido. Desde pequeno, ele sempre parecia saber o que seus pais estavam pensando, onde coisas perdidas estavam e tinha um amigo imaginário: Tony, que lhe mostrava coisas que iriam acontecer.

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Jack era um aspirante a escritor e professor de uma famosa escola preparatória. Mas tem um grave problema: o alcoolismo. Em uma noite especialmente terrível, quebra o braço de Danny, ao ver que ele derramou cerveja na peça que estava escrevendo. Depois de um terrível acidente, fica sóbrio. Mas sua luta é um verdadeiro inferno e um dia, mesmo sóbrio, acaba agredindo um aluno e perde seu emprego.

A situação da família deteriora rapidamente e ele se vê com uma última oportunidade para recuperar seu casamento e sua carreira. Um amigo lhe oferece um emprego como zelador do hotel Overlook, no Colorado. O Overlook foi construído entre 1907 e 1909 e mudou várias vezes de dono, durante os anos. Apesar de imenso e de ter uma história muito conhecida e por vezes muito infame, pela primeira vez o hotel passou a dar lucro. Isto porque, antes da administração atual, o hotel ficava isolado no inverno, sem ninguém que cuidasse do lugar, o que causava muitos danos devido às baixas temperaturas. Por isso, foi criado o cargo de zelador para o inverno. Um trabalho especialmente difícil e que requer as pessoas certas. Durante boa parte do inverno, o hotel fica completamente isolado por montanhas de neve. As estradas somem, os helicópteros não chegam, devido às tempestades, e as linhas de comunicação param de funcionar.

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O gerente do hotel, que entrevista Jack Torrance para o trabalho, tem sérias reservas quanto a contratá-lo, com sua família.

“- Não vejo nenhuma ligação entre a história gloriosa do Overlook, e sua impressão de que eu seja a pessoa errada para ocupar o cargo, Sr. Ullman – disse Jack. – Uma das razões pela perda de tanto dinheiro reside no fato de ocorrer uma depreciação a cada inverno. Esta depreciação diminui a margem de lucro, mais do que se possa pensar, Sr. Torrance. Os invernos são profundamente cruéis. A fim de suportar o problema, criei o cargo de operador de caldeira em regime de tempo integral e rotativo. Consertar os vazamentos, pois isso acontece, e fazer reparos, de tal forma que os elementos não fiquem sem um ponto de apoio. Estar em constante alerta em toda e qualquer contingência. Durante nosso primeiro inverno, empreguei uma família ao invés de um único homem. Foi uma tragédia. Uma tragédia terrível. Ullman olhou Jack friamente. – Cometi um erro. Admito. O homem era beberrão. (…) Sim, o Sr. Shockley me disse que o senhor não bebe mais. Ele também me contou sobre seu último emprego… seu último cargo de confiança, digamos assim. O senhor ensinava Inglês numa escola em Vermont. Perdeu o controle. (…) No inverno de 1970/71, depois da reforma do Overlook, e antes da nossa primeira temporada, admiti este… este coitado chamado Delbert Grady. Mudou-se para as dependências que o senhor e sua família irão ocupar. Ele tinha mulher e duas filhas. Eu tinha minhas preocupações a respeito, sendo as principais a dureza do inverno e isolamento dos Gradys do mundo exterior, por cinco ou seis meses. (…) Era melhor para um homem estar junto de sua família. (…) Acho que o que aconteceu foi o resultado de excesso de uísque barato, que Grady tinha em grande estoque, e que era de meu total desconhecimento, e uma situação curiosa que se chamava “febre da cabana”. Conhece a expressão? – Ullman deu um sorrisinho superior, pronto para a necessária explicação, assim que Jack admitisse sua ignorância, mas o rapaz folgou em responder rápida e decisivamente. “É uma gíria para uma reação de claustrofobia que pode ocorrer quando um grupo de pessoas é confinado. A sensação de claustrofobia é exteriorizada na forma de antipatia pelas pessoas que estão confinadas em sua companhia. Em casos extremos, isto pode resultar em alucinações e violência… já houve, inclusive, casos de assassinato gerado por problemas sem importância, tais como uma comida queimada ou uma discussão sobre quem deveria lavar os pratos. (…) Acho que o senhor se enganou em relação ao assunto. Ele os agrediu? – Matou-os, Sr. Torrance, e depois cometeu suicídio. Matou as duas meninas com um machadinho, a mulher com um revólver e se suicidou da mesma forma. Sua perna estava quebrada. Sem dúvida, deveria estar tão bêbado, que rolou escada abaixo.”

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Jack, porém, não leva a sério os avisos do gerente e aceita o trabalho. Seu plano é aproveitar este tempo de isolamento para terminar de escrever sua nova peça.  Enquanto isto, Danny está sendo avisado por Tony de que este não é um bom lugar para eles. Mas o garoto não conta nada a seus pais, pois sabe como a família precisa deste recomeço.

Ao chegarem ao hotel, no último dia da temporada, Danny vê coisas terríveis em alguns dos lugares por onde passam. Mas também faz um novo amigo, o Sr. Hallorann, o cozinheiro do hotel. Desde o início, os dois se entendem como ninguém. Uma ligação muito forte. O Sr. Hallorann conhece o segredo de Danny. E é ele que explicará a Danny sobre o hotel.

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“- Muito bem – falou Hallorann. Mexeu com as chaves dentro do bolso da jaqueta azul e abriu o porta-malas. Levantando as malas disse: – Você é iluminado, garoto. Mais do que qualquer outro que já conheci em minha vida. E veja que vou completar sessenta anos em janeiro próximo. – Hum? – Você é especial – disse Hallorann, voltando-se para ele. – Sempre chamei isto de luz interior. Era como minha avó chamava, também. Ela tinha. Costumávamos sentar na cozinha quando eu era um menino da sua idade, e tínhamos longas conversas sem sequer abrir a boca. – É mesmo? Hallorann sorriu ao ver Danny boquiaberto, com uma expressão quase faminta e disse: – Venha e entre no carro comigo um pouco. Quero conversar com você. (…)- Agora, ouça – falou Hallorann, segurando as duas mãos de Danny. – Já tive sonhos maus aqui, e já tive sensações desagradáveis. Já trabalhei aqui durante duas temporadas, e talvez por uma dúzia de vezes já tive… bem, pesadelos. E talvez, por meia dúzia de vezes pensei ter visto coisas. Não, não direi o quê. Não são para meninos como você. Coisas sórdidas, apenas. Uma vez, foi alguma coisa relacionada com a droga daqueles arbustos, tosquiados para parecerem animais. Outra vez, foi uma empregada, Delores Vickery era seu nome, e ela era um pouco iluminada, mas não creio que soubesse. O Sr. Ullman demitiu-a… você sabe o que é isso, rapaz? – Sim, senhor – respondeu Danny , candidamente. – Meu pai foi demitido da escola, e eu acho que é por isso que estamos no Colorado. – Bem, o Sr. Ullman demitiu-a porque ela afirmou ter visto alguma coisa em um dos quartos onde… bem, onde aconteceu uma coisa ruim. Era o quarto 217, e quero que me prometa que não vai lá, Danny. O inverno inteiro. Mantenha-se afastado. – Está bem – disse Danny . – A senhora, a camareira, ela lhe pediu para ir ver? – Pediu. E havia uma coisa ruim lá. Mas… não acho que era uma coisa ruim que pudesse ferir qualquer um, Danny , é o que estou tentando dizer. Os iluminados às vezes podem ver coisas que vão acontecer, e acho que, às vezes, podem ver coisas que aconteceram. Como se fossem desenhos num livro. Já viu algum desenho num livro, que o tenha apavorado, Danny ? – Já – respondeu o menino, pensando na história do Barba Azul, e o desenho era da mulher do Barba Azul abrindo a porta e vendo as cabeças. – Mas sabia que não o feriam, não sabia? – Si… im – disse Danny, um pouco incerto. – Bem, assim é neste hotel. Não sei por que, mas parece que todas as coisas ruins que já aconteceram aqui ainda têm pedacinhos espalhados, como pedacinhos de unha cortada ou melecas que alguém muito porco limpou debaixo de uma cadeira. Não sei por que só aqui, coisas ruins acontecem em todo hotel do mundo, acho eu, e já trabalhei numa porção deles e nunca tive problemas. Só aqui. Mas, Danny , não acho que essas coisas possam atingir qualquer pessoa. – Enfatizou cada palavra da frase sacudindo de leve os ombros do menino. – Portanto, se enxergar alguma coisa, num corredor, quarto ou lá fora perto dos arbustos… olhe para o outro lado e, quando se voltar, já terá desaparecido. Está bem?”

E, assim, quando todos os funcionários e hóspedes se despedem do Overlook, passamos, com a família Torrance, a conhecer verdadeiramente o hotel. Uma experiência que você jamais irá esquecer. Cada canto do Overlook tem uma memória sombria. Os corredores, os quartos, o elevador jamais estão vazios. E quanto mais a sensação de isolamento do mundo exterior cresce, mais cresce a certeza de que eles não estão sozinhos ali dentro.

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Stephen King é um mestre. Fez-me ter medo até mesmo de uma mangueira de incêndio. E o que dizer sobre o elevador do Overlook? Como diria um dos personagens do livro, ninguém me faria chegar a 200 km daquele lugar. O Overlook te seduz e te afasta com forças impressionantes. Você quer saber tudo sobre ele e, ao mesmo tempo, ficar o mais longe possível de lá.

Excepcional! Não existe outra palavra para ambos: filme e livro!

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“Ficaram olhando o carro até o perderem de vista, no declive. Quando desapareceu, os três se entreolharam em silêncio, e quase apavorados. Estavam sozinhos. Folhas de álamo rodopiavam e deslizavam sem rumo, pela grama muito bem cortada e longe dos olhos de qualquer hóspede. Não havia ninguém para ver as folhas de outono correndo furtivas pela grama, só os três. Jack teve uma curiosa sensação de voltar atrás, como se sua vida se tivesse reduzido a uma simples faísca, enquanto o hotel e o solo de repente duplicavam seu tamanho e tornavam-se sinistros, sufocando-os como que dotados de poder inanimado.”

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