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#Resenha: Frida – Hayden Herrera

“A única coisa que sei é que eu pinto porque preciso, e pinto tudo que passa pela minha cabeça, sem levar nada mais em conta.”

Frida Kahlo

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Desde que conheci a história de Frida Kahlo, passei a me interessar muito por ela e suas obras. Frida nasceu em 6 de julho de 1907, na cidade de Coyoacán, no México. Apesar de mais tarde afirmar que teria nascido no ano de 1910, ano do início da Revolução Mexicana. Filha de pai alemão e mãe mexicana, com descendência indígena. Quando tinha seis anos, contraiu poliomielite, que lhe deixou uma lesão na perna direita e passou nove meses confinada em sua casa. Neste momento, começava a tomar forma um traço importante de sua personalidade: conseguir enxergar a si mesma como outra pessoa. Uma amiga imaginária.

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“Eu devia ter seis anos quando senti intensamente a experiência de uma amizade imaginária com uma menininha mais ou menos da minha idade. Na janela de vidro do que à época era o meu quarto, e que dava para a rua Allende, eu bafejava no vidro e com o dedo desenhava uma “porta” […] [aqui Frida desenha a janela do quarto de sua infância]. Cheia de alegria e urgência, na minha imaginação eu saía por essa porta, atravessava toda a planície que via à minha frente até chegar à leiteria chamada “Pinzón”. […] Eu entrava pela letra “O” de Pinzón e descia apressadamente para o interior da terra, onde minha amiga imaginária estava sempre à minha espera. Não me lembro da imagem dela, nem da cor. Mas sei que ela era alegre — ela ria muito. Sem fazer barulho. Ela era ágil e dançava como se seu corpo não tivesse peso algum. Eu acompanhava todos os seus movimentos e, enquanto ela dançava, eu contava a ela todos os meus problemas secretos. Quais? Não me lembro. Mas só pela minha voz ela sabia tudo a meu respeito. […] Quando eu voltava para a janela, entrava pela mesma porta desenhada no vidro. Quando? Quanto tempo eu tinha passado com ela? Não sei. Podia ter sido um segundo ou milhares de anos. […] Eu estava feliz. Eu apagava a “porta” esfregando a mão no vidro e ela “desaparecia”. Eu corria com meu segredo e a minha felicidade para o canto mais afastado do pátio da minha casa, e sempre no mesmo lugar, sob um cedro, eu chorava e dava gargalhadas, surpresa de estar sozinha com a minha grande felicidade e com a lembrança tão nítida da minha menininha. Trinta e quatro anos se passaram desde que tive a experiência dessa amizade mágica e, toda vez que me lembro dela, ela torna a ganhar vida e fica cada vez maior dentro da minha cabeça.”

Este, infelizmente, não foi o único percalço na vida de Frida. Sempre inteligente e afrente das meninas de sua idade, Frida era uma das únicas mulheres a estudar na Escola Nacional Preparatória, onde se encontrava a nata intelectual do país. Foi neste momento, até então o seu auge, que ela sofreu um acidente que lhe traria consequências ao longo de toda a sua vida.

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“Foi um daqueles acidentes que fazem uma pessoa, mesmo anos depois do fato, estremecer de horror. Envolveu a colisão entre um bonde e um precário ônibus de madeira, e transformou a vida de Frida Kahlo.”

“Pouco depois que entramos no ônibus houve a colisão. Antes disso, tínhamos subido em outro ônibus, mas como eu tinha perdido minha sombrinha, descemos para procurar e foi por isso que acabamos entrando no ônibus que me destruiu. O acidente aconteceu numa esquina em frente ao mercado de San Juan, exatamente em frente. O bonde veio se aproximando devagar, mas nosso motorista era jovem e nervoso. Quando o bonde fez a curva na esquina o ônibus foi prensado na parede. Eu era uma menina inteligente, mas muito pouco prática, apesar de toda a liberdade que eu tinha conquistado. Talvez por causa disso, não avaliei a situação nem o tipo de ferimento que eu tive. A primeira coisa em que pensei foi em um balero [brinquedo mexicano] com cores bonitas que eu tinha comprado naquele dia e que eu estava carregando comigo. Tentei procurar o brinquedo, achando que o que tinha acontecido não teria maiores consequências. É mentira que a pessoa tem consciência da batida, é mentira que a pessoa chora. Em mim não houve lágrimas. A colisão nos jogou para a frente e um corrimão de ferro me varou do mesmo jeito que uma espada rasga a carne do touro. Um homem me viu tendo uma tremenda hemorragia. Ele me carregou e me deitou em cima de uma mesa de bilhar até que a Cruz Vermelha chegasse.”

Uma barra de ferro atravessou o corpo de Frida, quebrando sua coluna em três lugares, a clavícula, terceira e quarta vértebras. Teve onze fraturas no pé direito, uma luxação no cotovelo esquerdo e sua pélvis se quebrou em três lugares. Além da lenta e dolorosa recuperação, cheia de cirurgias e imobilizações dolorosas, as lesões causadas pelo acidente impediram que Frida conseguisse ter filhos. Apesar de engravidar, sofreu sucessivos abortos.

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“Em suas cartas há notas de humor e alegria, mas que nunca conseguem abafar um refrão mais sombrio: No hay remedio — não há remédio. “É preciso suportar”, ela dizia. “Estou começando a me acostumar com o sofrimento.” A partir do acidente, a dor e a fortaleza tornaram-se temas centrais em sua vida.”

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Foi no período de sua recuperação que Frida começou a pintar. E para saber se deveria prosseguir em uma carreira de pintora, Frida recorreu à Diego Rivera para avaliar seus quadros. Diego já era um dos mais famosos artistas do México, um muralista extremamente talentoso. E se tornaria o grande amor da vida de Frida. Eles se casariam pouco depois e viveriam uma história de amor, admiração, traições e separações sem fim.

“Diego, houve dois grandes acidentes na minha vida: o bonde e você.”

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A biografia de Hayden Herrera é sensacional. Através de inúmeras cartas escritas pela própria Frida e pelos que estavam a sua volta, sua história é contada e podemos mergulhar fundo em seus sentimentos, a ponto de parecer que a conhecemos intimamente. Mas a parte mais fascinante é como toda a sua obra é dissecada, conectando-as aos momentos de sua vida, que por si só já seria extraordinária.

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“É impossível separar a vida e a obra dessa pessoa singular. Suas pinturas são sua biografia.”

Frida é muito mais que um exemplo de superação. Seus ideais, o amor pelo seu povo e por seu país, suas convicções políticas e sua individualidade a tornam excepcional. Até mesmo suas roupas, seus trajes tehuanos, ela consegue transformar em arte.

Sua obra é despretensiosa, não se prende a nenhum estilo, somente retrata o que está no fundo de sua alma.

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“Não estou doente. Estou destruída. Mas me sinto feliz por continuar viva, enquanto eu puder pintar.”

Livro imprescindível para todos os fãs de Frida!

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“No meu corpo inteiro só existe um; e eu quero dois. Para haver dois deles precisam cortar um. É esse um que eu não tenho que eu preciso ter pra conseguir andar, o outro já estará morto! Pra mim, asas bastam. Que eles cortem, e eu voarei!”

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