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Scarlett O’Hara – E o Vento Levou…

“There was a land of Cavaliers and Cotton Fields called the Old South. Here in this pretty world, Gallantry took its last bow. Here was the last ever to be seen of Knights and their Ladies Fair, of Master and of Slave. Look for it only in books, for it is no more than a dream remembered, a Civilization gone with the wind…”

Ben Hecht

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Chegou mais um final de semana e este é muito especial. No domingo, dia 8 de março, é comemorado o Dia Internacional da Mulher. E para celebrar, resolvi falar aqui sobre uma das melhores personagens femininas da história do cinema e da literatura: Scarlett O’Hara, de E o Vento Levou.

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O livro de Margareth Mitchell foi publicado em 1936 e foi vencedor do prêmio Pulitzer do ano posterior. A história começa em 1861, o ano em que foi declarada a Guerra Civil ou Guerra da Sucessão americana. Scarlett é a filha mais velha de um rico produtor de algodão, no sul dos Estados Unidos.  Desde o primeiro momento, fica claro que Scarlett é mimada e egocêntrica.

“Mas, não obstante a simplicidade da saia rodada, a maneira modesta como usava o cabelo, enrolado sobre a nuca e a quietude das pequeninas mãos brancas que lhe repousavam, cruzadas, no regaço, a sua verdadeira personalidade conseguia sobressair. Apesar da expressão calma que a fisionomia normalmente ostentava, os olhos dela eram irrequietos, voluntariosos, cheios de vida, o que estava em completo desacordo, com a sua atitude recatada. As maneiras discretas, estudadas, tinham-lhe sido impostas pelas suaves repressões maternas e pela disciplina mais dura que a ama preta a fizera observar; mas os olhos eram dela, muito seus, e só a ela obedeciam.”

E o Vento Levou – Margareth Mitchell

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Apesar de viver rodeada por inúmeros rapazes da região, é apaixonada por seu vizinho Ashley Wilkes. Mas, contrariando todas as expectativas de Scarlett, ele resolve se casar com sua prima, Melanie. Ter suas vontades contrariadas foi uma verdadeira novidade para ela, que resolve, então, se casar com o irmão de Melanie, Charles, só para se vingar.

Neste mesmo dia, Scarlett conhece Rhett Butler, charmoso, sagaz e com uma reputação arruinada. Ele, apesar de se mostrar interessado por ela, não satisfaz nenhuma de suas vontades e se prova no mesmo nível de astúcia que ela.

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Entra, então, em cena, um dos grandes “personagens” da história: a guerra. Durante todo o período em que pairou a sombra de uma possível guerra entre norte e sul, os sulistas jamais consideraram uma derrota, muito pelo contrário, acreditavam que tinham mais fibra, valores mais elevados e muito mais coragem que seus vizinhos do norte, deixando de considerar seu poderio militar e suas fábricas de munição. E a guerra e posterior derrota do Sul, vem para mudar toda a sua vida. Como na citação que dá início ao filme: “…uma civilização que o vento levou.”

E é neste contexto que Scarlett irá passar pelas maiores provações de sua vida. Enfrentando a morte de familiares e amigos, a angústia pelos que estão lutando na guerra, a pobreza e a fome. Durante a história, ela se verá sozinha e desamparada muitas vezes. Mas lutará, com todos os meios possíveis para sobreviver.

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“As God is my witness, as God is my witness they’re not going to lick me. I’m going to live through this and when it’s all over, I’ll never be hungry again. No, nor any of my folk. If I have to lie, steal, cheat or kill. As God is my witness, I’ll never be hungry again.”

Scarlett tem muitas atitudes equivocadas, a maioria delas provocadas por sua obsessão pelo Ashley. Apesar disso, não tem como não se apaixonar pela personagem. Por sua força, determinação e inteligência. Seus vários defeitos e erros somente a fazem mais completa, mais real. Pensar que uma personagem assim foi escrita em 1936 é realmente impressionante! E em vários trechos podemos identificar, ainda hoje, dificuldades pelas quais toda mulher passa.

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“Estou cansada de ser eternamente antinatural e nunca fazer qualquer coisa que eu quero fazer. Estou cansada de agir como se eu não comesse mais do que um pássaro, e andar quando eu quero correr e dizer que sinto que vou desmaiar depois de uma valsa, quando eu poderia dançar por dois dias e não me cansar. Estou cansada de dizer: “Como você é maravilhoso!”, para enganar os homens que não têm a metade do senso que eu tenho, e estou cansada de fingir que não sei de nada, para que os homens possam me dizer coisas e se sentirem importantes, enquanto o fazem…”

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“Esse é o único pecado imperdoável em qualquer sociedade. Seja diferente e seja condenado! “

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Até você perder sua reputação, você nunca perceberá o fardo que era ou o que a liberdade realmente é. “ O filme e o livro são apaixonantes!

Se você ainda não conhece, não perca mais tempo e veja agora! Não irá se arrepender!

“Dear Scarlett! You aren’t helpless. Anyone as selfish and determined as you are is never helpless. God help the Yankees if they should get you.”

Rhett Butler

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#Resenha: Psicose – Robert Bloch

“Mary começou a gritar. A cortina se abriu mais e uma mão apareceu, empunhando uma faca de açougueiro. E foi a faca que, no momento seguinte, cortou o seu grito. E a sua cabeça.”

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Já no começo desta resenha, temos a revelação da morte de uma das personagens principais de Psicose, o romance de Robert Bloch, que revolucionou a maneira de desenvolver um suspense… matando sua mocinha no primeiro terço do livro. Longe de estragar a história, isto só ajudou a construir uma narrativa excepcional.

Psicose conta a história de Norman Bates, gerente de um motel de uma pequena e pacata cidade. Um homem de meia idade, que nunca se casou e que vive com sua mãe dominadora. As coisas se tornam ainda mais complicadas quando uma nova estrada é inaugurada, diminuindo drasticamente o número de carros que passam na frente do motel.

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Norman, então, se torna ainda mais solitário e dependente de sua mãe.

“— Eu bem disse, quando me contaram que a estrada ia ser transferida. A sra. podia ter vendido o motel antes que a notícia da mudança transpirasse. (…) Mas a senhora não me quis ouvir. Nunca me ouve, não é? É só o que a senhora quer, o que a senhora acha. A senhora me deixa doente! (…)

— Então deixo, garoto? Repetiu ela, com suavidade ainda maior. — Deixo-o doente, heim? Pois bem: acho que não. Não, menino: não sou eu quem o deixa doente. (…) A verdade é que lhe falta senso comum. Nunca teve a menor dose de senso comum! Por exemplo, nunca teve o senso comum de sair para sempre desta casa, de arranjar um emprego, de se alistar no Exército… Nem mesmo de arranjar uma namorada…

— A senhora é que não deixou!

— Está certo, Norman: fui eu que não deixei… Mas se você fosse homem, teria feito o que queria. Quis gritar que ela estava errada, mas não pôde.”

Conhecemos, então, Mary Crane. Mary trabalhou por muitos anos em uma agência de seguros. Tem uma vida simples e cuida de sua irmã mais nova, Lila, tentando lhe proporcionar coisas que não teve, como cursar uma faculdade. Mary é noiva de Sam, o dono de uma loja de ferragens, que luta para saldar as dívidas deixadas por seu pai, para que depois possam se casar. Mas, Mary já está muito cansada de esperar. No momento em que começa a perder toda a esperança, surge uma oportunidade tentadora. Um dos clientes da agência paga à seu chefe 40 mil dólares, em dinheiro. E pedem que Mary deposite a quantia no banco. Em um impulso, ela resolve fugir com o dinheiro e encontrar seu noivo para se casar.

"Algumas vezes...nós, deliberadamente, nos colocamos em uma armadilha."

“Algumas vezes…nós, deliberadamente, nos colocamos em uma armadilha.”

Em meio a uma viagem turbulenta, dirigindo o dia todo, ela acaba se perdendo na noite chuvosa e resolve parar para descansar no motel Bates.

“Desligou o motor e esperou. Escutava a monótona pancada de chuva entre as lufadas do vento. Lembrava-lhe a noite em que a mãe morrera, pois chovia assim. E agora a escuridão a cercava. Estava sozinha no meio da treva. De que lhe valia o dinheiro? De que lhe valia Sam? Errara o caminho, estava numa estrada desconhecida… não havia recurso. Cavara sua própria cova e agora tinha de deitar-se nela… Mas por quê pensava assim? Não era cova: era leito. Ainda procurava decifrar isso quando a enorme sombra surgiu da treva e abriu tranquilamente a porta do carro.”

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-Você sai com seus amigos? -O melhor amigo de um garoto é sua mãe.

Mary conhece Norman e durante um jantar ele lhe conta sua história e de sua mãe. E quando ela sugere que ele interne sua mãe em um lugar em que possam tomar conta dela, eles têm uma acalorada discussão. Que termina com Mary voltando ao seu quarto e tomando a decisão de devolver o dinheiro que roubou. Mas ela nunca teve a chance. Acabou sendo assassinada no chuveiro… No que se tornaria uma das cenas mais icônicas do cinema.

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Norman ao descobrir que sua mãe matou Mary, resolve se desfazer do corpo e salvar sua mãe da cadeia. Mas, logo começam as buscas por Mary. Sua irmã, Lila, procura Sam para descobrir se ela foi até ele e um investigador é contratado pela agência para investigar e encontrar o dinheiro.

"Oh, mas ela é inofensiva. Tão inofensiva quanto estes pássaros empalhados."

“Oh, mas ela é inofensiva. Tão inofensiva quanto estes pássaros empalhados.”

O final de Psicose é completamente inesperado e fez do filme de Hitchcock um dos maiores clássicos do cinema. Psicose trata do que há de mais aterrorizante, a natureza humana.

O livro foi inspirado na história de Ed Glein. Morador de um vilarejo, em Wisconsin, Ed entrou para a história como um dos maiores assassinos em série da história. Como o personagem de Norman, Ed era solteiro e recluso e quando seus crimes foram descobertos tinha 51 anos. Além de assassinar mulheres, Ed guardava partes de seus corpos, como lábios, narizes, cabeças e tinha até roupas com a pele de suas vítimas. Apesar de não fazer parte do processo, todos diziam que teve uma relação perturbadora com sua mãe.

"Eu acho que todos nós somos um poco loucos de vez em quando."

“Eu acho que todos nós somos um poco loucos de vez em quando.”

“A fazenda de Gein oferecia um testemunho não só sobre a insondável aptidão do ser humano para a barbárie, mas sobre a capacidade de uma comunidade inteira em negar sua existência. “Não pode acontecer aqui”, insiste a letra satírica de uma canção de Frank Zappa, Help I’m a Rock. O “aqui” em questão é o coração e a mente do ser humano.”

Alfred Hitchcock e os Bastidores de Psicose – Stephen Rebello

Robert Bloch ficou extremamente impressionado quando a história começou a ser publicada nos jornais, mesmo não sabendo de todos os detalhes, afinal muitas coisas eram pesadas demais para serem divulgadas nos anos 50. Ele, então, começou a criar em sua mente o personagem principal de um romance. E, com o passar do tempo, o desenvolvimento de sua criação se mostrou acuradamente de acordo com a história real.

“Quando Bloch percebeu a estranha semelhança entre as revelações dos crimes verdadeiros e seu próprio romance, começou a se pegar encarando sua imagem nos espelhos e pensando sobre si mesmo. “Em outras palavras”, ruminou o escritor, “ao inventar meu personagem cheguei muito perto da personalidade real de Ed Gein. Fiquei horrorizado em pensar como eu podia imaginar tais coisas. E o resultado foi que passei os dois anos seguintes me barbeando de olhos fechados. Eu não queria me olhar no espelho.”

Alfred Hitchcock e os Bastidores de Psicose – Stephen Rebello

Hitchcock comprou os direitos para realizar o filme. Esta decisão desagradou há muitos, desde os executivos da Paramount até os seus colaboradores mais próximos. Mas, o diretor comprou a briga e realizou o filme com um orçamento reduzido e até investindo seu próprio salário na produção. Além disso, comprou o maior número de exemplares do livro, que sua equipe conseguiu encontrar, para que o final não fosse revelado previamente e o filme perdesse o impacto.

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O filme supera em muito o livro. Coisa rara de acontecer! Muito bem construído e com uma tensão crescente e palpável. Possui cenas primorosas, como quando Mary está no carro, com o dinheiro, pronta para deixar a cidade e é avistada por seu chefe.

O filme e o livro são imperdíveis! Não deixem de conferir!

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“Eles vão ver e vão saber, e irão dizer: Por que? Ela não machucaria uma mosca…”

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#Resenha: Garota Exemplar – Gillian Flynn

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“Quando penso em minha esposa, penso sempre em sua cabeça. No formato dela, em primeiro lugar. Quando nos conhecemos, foi na parte de trás da cabeça que eu reparei, e havia algo adorável nela, em seus ângulos. (…) Eu reconheceria sua cabeça em qualquer lugar. E o que havia dentro dela. Também penso nisso: sua mente. Seu cérebro, todas aquelas espirais, e seus pensamentos disparando por essas espirais como centopeias rápidas e frenéticas. Como uma criança, eu me imagino abrindo seu crânio, desenrolando seu cérebro e vasculhando-o, tentando capturar e entender seus pensamentos. No que você está pensando, Amy? A pergunta que eu fiz com maior frequência durante nosso casamento, embora não em voz alta, não à pessoa que poderia responder. Suponho que essas indagações pairem como nuvens negras sobre todos os casamentos: No que você está pensando? Como está se sentindo? Quem é você? O que fizemos um ao outro? O que iremos fazer?”

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A história de Garota Exemplar começa no dia do quinto aniversário de casamento de Amy e Nick Dunne. Começamos a acompanhar os pensamentos de Nick, relembrando o desenrolar dos fatos que os levou ao ponto em que estão em seu casamento. As dificuldades financeiras e um problema familiar levam Nick a decidir pela mudança de Nova Iorque para sua pequena cidade natal no Missouri…levando consigo sua esposa Amy. Esta mudança não estava nos planos de Amy e, logo, ela não escondia sua frustração.

“Eu a estava arrastando, como um homem das cavernas, para uma cidade que ela evitara agressivamente, e a obrigaria a viver no tipo de casa da qual costumava debochar. Suponho que não seja um acordo se apenas um dos dois vê dessa forma, mas nossos acordos eram sempre assim. Um de nós sempre estava com raiva. Normalmente Amy.”

"Existe uma diferença entre realmente amar alguém e amar a ideia dessa pessoa."

“Existe uma diferença entre realmente amar alguém e amar a ideia dessa pessoa.”

Quando, então, Nick chega em casa e a encontra revirada e sem sinais de Amy, a polícia logo passa a considerá-lo o principal suspeito. A necessidade constante que Nick sente em agradar às pessoas faz com que ele tenha reações atípicas e suspeitas no desenrolar da trama, como sorrir na coletiva de imprensa sobre sua esposa desaparecida.

Mas, será que é somente isto? Poderia Nick ser realmente culpado?

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A primeira parte do livro faz com que esta dúvida aumente a cada minuto. Os dias passam e as mentiras que Nick disse à polícia continuam a vir à tona. E sua descrição de Amy parece confusa e errônea quando comparadas à versão dela descrita em seu diário.

E aqui temos a primeira sacada genial do livro. Os capítulos são alternados entre Nick e Amy. Nos de Nick, acompanhamos os fatos em tempo real, desde o dia do desaparecimento de Amy e nos dela, temos a leitura de seu diário, que conta desde o início do relacionamento deles.

Enquanto a Amy que Nick descreve é rancorosa e está constantemente insatisfeita com sua relação, a Amy que nos é apresentada no diário é doce e loucamente apaixonada por seu marido, que não a compreende e desconta todas as suas frustações nela.

Qual seria a versão real? E, se Nick é inocente, por que tantas mentiras?

"O amor faz com que você queira ser um homem melhor. Mas talvez o amor, o verdadeiro amor, também lhe dê permissão para que seja somente o homem que é."

“O amor faz com que você queira ser um homem melhor. Mas talvez o amor, o verdadeiro amor, também lhe dê permissão para que seja somente o homem que é.”

E, finalmente, após sete dias de seu desaparecimento, finalmente conhecemos a verdade.

Toda a primeira parte é sensacional, construindo a tensão, nos aproximando dos personagens e criando grandes dúvidas. Mas a segunda parte é o ponto alto do livro.

Amy sem dúvidas é um dos personagens mais bem construídos que já tive o prazer de ler. Desde sua infância, teve que conviver com a sombra da Amy Exemplar, personagem de uma série de livros infantis que seus pais criaram para mostrar como eles esperavam que ela agisse. Ou seja, Amy sempre esteve abaixo das expectativas, sempre tendo que lutar para superar padrões inatingíveis.

“Até Nick, eu nunca me sentira como uma pessoa de verdade, porque sempre fui um produto. Amy Exemplar tinha de ser brilhante, criativa, gentil, atenciosa, esperta e feliz. Só queremos que você seja feliz. Rand e Marybeth diziam isso o tempo todo, mas nunca explicaram como. Tantas lições, oportunidades e vantagens, e eles nunca me ensinaram como ser feliz. Lembro-me de sempre ficar perplexa com as outras crianças. Eu ia para uma festa de aniversário, via as outras crianças rindo e fazendo caretas, e tentava fazer também, mas não entendia por quê. Ficava sentada ali com o elástico do chapéu de aniversário apertando meu queixo, com a cobertura granulada do bolo deixando meus dentes azuis, e tentava entender por que aquilo era divertido.”

Amy é complexa, intensa e passa longe dos estereótipos de personagens femininos a que estamos acostumados. O que torna o livro excepcional!

Se você ainda não leu Garota Exemplar, comece agora! E assista ao filme, que faz jus à obra que representa (apesar do livro ainda ser bem melhor!).

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“Não tenho mais nada a acrescentar. Só queria garantir que eu tivesse a última palavra. Acho que fiz por merecer.”