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março 2017

Books, Documentário, Oscar, Séries

American Crime Story – O Povo Contra O.J. Simpson (Jeffrey Toobin)

“An American Tragedy”

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A chamada de uma das capas mais criticadas da revista Time, que pode ser considerada um prenúncio de como o julgamento de O.J. Simpson iria ser conduzido. Orenthal James “O.J.” Simpson é um famoso ex-jogador de futebol americano, que após se aposentar dos campos, começou uma carreira bem-sucedida na televisão, como comentarista esportivo e participando de diversos filmes, como a franquia: Corra que a Polícia Vem Aí.

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O.J. com seu carisma incomparável e feitos notórios no esporte, conquistou status de celebridade em Los Angeles, cidade palco de grande tensão racial. A polícia de LA tinha um histórico de discriminação e violência exacerbada. Em 1991, um vídeo em que policiais espancavam violentamente um taxista afro-americano, Rodney King, que haviam detido sobre a acusação de dirigir em alta velocidade, foi divulgado na imprensa, causando intensa revolta. Treze dias depois, Latasha Harlins, uma adolescente afro-americana de 15 anos foi baleada e morta por Soon Ja Du, dona de uma mercearia com quem a garota havia discutido. Os policiais responsáveis pelo espancamento de King foram absolvidos por um júri predominantemente branco e Soon Ja Du foi condenada somente a condicional, multa e serviço comunitário. A impunidade deu origem a 3 dias de uma violenta revolta, em 1992, com saques, incêndios, confrontos e depredações. A comunidade negra estava farta das perseguições sem motivos e da falta de justiça que sofriam todos os dias. Líderes religiosos, artistas e esportistas de renome planejavam ações de protesto. Nas Olimpíadas de 1968, Tommie Smith, vencedor da prova de 200 metros e John Carlos, terceiro lugar, após receberem suas medalhas, levantaram os braços com os punhos fechados, símbolo do Movimento dos Panteras Negras e por isso foram expulsos dos jogos. Era notório que o envolvimento na causa prejudicava muitas vezes a carreira dos atletas.

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O.J. Simpson não tomava parte de nenhuma manifestação. Ele tinha um objetivo claro: queria vencer, queria fama. Seu charme, talento e apatia política o tornaram uma celebridade acessível. Desde quando jogava pela USC, universidade predominantemente branca e alheia aos conflitos sociais, onde fez a histórica corrida (The Run), que mudou os rumos de sua carreira, O.J. se relacionava com personalidades brancas e não sofria o mesmo preconceito que outros atletas que eram engajados sofriam. Uma de suas frases mais famosas, sintetiza essa ideia: “Eu não sou negro. Sou O.J.”

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Simpson era um herói americano e sinônimo de sucesso em tudo que participava. O primeiro comercial que participou para a Hertz, em que corre pelo aeroporto, tornou-se um fenômeno e abriu diversas portas para uma carreira fora dos campos de futebol americano.

Simpson era casado com Marguerite, com quem teve 3 filhos: Arnelle, Jason e Aaren. Após seu divórcio, quando conheceu Nicole Brown, em 1977, trabalhando em um clube. Ela tinha apenas 18 anos na época. Eles se casaram em 1985 e tiveram dois filhos. Seu relacionamento foi marcado por desentendimentos, ciúmes, traições e diversos episódios de violência doméstica. Em 1992, Nicole pede o divórcio, mas em 1993, resolve fazer uma tentativa de reconciliação, que fracassa miseravelmente e culmina na separação definitiva. Pelo menos, para Nicole. Simpson continua obcecado por ela. Seguindo-a e espionando-a. O suposto relacionamento de Nicole e Marcus Allen, um protegido de O.J. e nova estrela do futebol, agrava a tensão entre eles. No dia 12 de junho de 1994, há um recital de dança dos filhos de Nicole e O.J. e ela resolve ter um jantar com sua família no Mezzaluna. O.J. não é convidado. Durante o jantar, sua mãe esquece os óculos no restaurante e Nicole liga para pedir que entreguem-nos em sua casa. Ron Goldman, um dos garçons leva-os até Brentwood. Os dois são brutalmente assassinados na entrada da casa de Brown, enquanto os dois filhos dela dormiam no andar de cima.

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Ron Goldman

Ron Goldman

Um dos vizinhos descobriu os corpos e ligou para a polícia. Os oficiais ao descobrirem que uma das vítimas era a ex-esposa de O.J. decidiram avisá-lo pessoalmente, antes que a mídia divulgasse. Ao chegar em Rockingham, os policiais avistaram um Ford Bronco na calçada. Nele havia rastros de sangue. Decidiram, então, entrar na propriedade, alegando que O.J. poderia estar em perigo. Kato Kaelin, um amigo de Simpson, que estava hospedado em uma casa de hóspedes da propriedade, foi encontrado e informou que O.J. havia viajado para Chicago naquela noite. Ele também relatou ter ouvido um grande barulho e sentido um tremor na parede da casa, que ele acreditou ser um terremoto. Um dos policiais, Mark Fuhrman resolveu investigar. A casa de hóspedes ficava bem próxima à cerca da propriedade e no espaço entre elas encontrou uma luva com sangue, idêntica à deixada na cena do crime.

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Ao voltar para Los Angeles, O.J. foi levado para prestar depoimento. Um dos policiais o algemou por alguns segundos, até que foi ordenado que o soltasse, pois ele não estava sendo acusado de nada. Mas o momento já havia sido captado por um dos repórteres acampados ao redor de sua propriedade. Os investigadores que o interrogaram falharam miseravelmente em construir uma linha do tempo concisa. Preocupados em não deixar uma celebridade como O.J. desconfortável, acabaram deixando que ele conduzisse a entrevista e que não desse nenhuma informação concreta que poderia ser utilizada pela promotoria.

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Mas as evidências eram abundantes, o sangue de O.J. estava na cena do crime. Ele tinha um corte no dedo, que explicava em uma versão diferente à cada pessoa que perguntava. O sangue de Nicole e Ron foram encontrados no Bronco e na luva da Rockingham. Luva esta que era uma edição limitada da Bloomingdale’s. Foi encontrado um recibo de que uma luva do modelo e do mesmo tamanho foi comprada por Nicole para presentear Simpson. O histórico de violência doméstica, com fotos das agressões e ligações gravadas para a polícia corroboravam a tese. Tudo parecia indicar uma condenação certa.

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Marcia Clark, uma promotora em ascensão, que sabia trabalhar bem com provas de DNA, foi escolhida para o caso, junto com Bill Hodgman. A defesa começou incialmente com Bob Shapiro, um advogado famoso pelos casos de celebridades que defendia e acostumado a conseguir acordos. Shapiro sabendo que não tinha a experiência necessária para um caso criminal deste porte começou a montar sua equipe, agregando o amigo pessoal de O.J., Robert Kardashian; Alan Dershowitz, notável advogado de defesa; Barry Scheck, especialista em DNA; F. Lee Bailey e Johnnie Cochran, que tomaria as rédeas do caso das mãos de Shapiro. Nascia o Dream Team e tinha início o julgamento do século. Posteriormente, entraria para o time da promotoria, Chris Darden, um promotor negro. Sua adição ao time foi duramente criticada, como uma tentativa de melhorar a imagem da promotoria junto aos jurados em sua maioria afro-americanos.

Prosecutors

Promotores

The Dream Team

The Dream Team

A questão racial foi desde o começo o mote do julgamento. Desde onde seria realizado, em Santa Mônica, em que a maioria dos jurados registrados são brancos ou no centro de Los Angeles, com grande número de jurados negros e latinos. Como seria a seleção do júri? E, principalmente, as ações da LAPD estavam na mira de todos os olhares. Teria havido uma tentativa de incriminar O.J.? Ironicamente, a polícia de Los Angeles tinha uma excelente relação com O.J., inclusive muitos dos policiais frequentavam sua casa em Rockingham. Mas o histórico da força policial testemunhava contra eles. E a comunidade negra via O.J. como um herói e mais uma vítima de discriminação. De repente, Simpson passou de um atleta que nunca se envolveu na luta pelos direitos civis para um mártir. O povo estava cansado. A ferida aberta na absolvição dos policiais que espancaram Rodney King ainda sangrava. Em meio a tudo isso, são descobertas provas de que Mark Fuhrman, que havia descoberto as principais provas do caso e era testemunha-chave da promotoria, era racista. Em fitas reveladas no meio do julgamento, Fuhrman afirmava ter prendido, espancado e humilhado afro-americanos sem nenhum motivo. E dizia também que já havia fabricado evidências.

Mark Fuhrman

Mark Fuhrman

O livro de Jeffrey Toobin, um jornalista que cobriu o caso e foi o primeiro a revelar a estratégia da defesa e as evidências contra Mark Fuhrman, demonstra os vários erros cometidos pela promotoria durante o julgamento, a execração de Marcia Clark e às humilhações a que foi submetida pela mídia e até mesmo pelo juiz Lance Ito, as dificuldades que Chris Darden enfrentou dentro de sua própria comunidade e as disputas de ego dentro do Dream Team. Mas, principalmente, mostra como a questão racial e os anos de impunidade foram fatores decisivos para a absolvição de O.J.

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A série de TV, produzida pela FX, de mesmo nome, foi baseada no livro de Toobin e é um primor. Atuações excelentes, direção segura de Ryan Murphy, que nos levam completamente ao ambiente da época. Mas o grande destaque vai para o documentário, vencedor do Oscar 2017, O.J.: Made in America. Dividido em 5 partes, nos mostra toda a vida de Simpson e como seu caráter foi moldado. Mostra os grandes conflitos e tensões que foram sendo acumulados durante os anos e traz entrevistas exclusivas com os personagens desta história. O documentário traz ainda uma parte extremamente importante, que começa a ser desenhada em American Crime Story, após a absolvição: como foi a vida de O.J. após o julgamento. Desde o distanciamento de seus amigos mais próximos a que ele tanto prezava; a perda de seus contratos; a condenação em um julgamento civil; seus bens sendo penhorados. A decadência de quem antes era um herói nacional até sua prisão por sequestro e assalto em Las Vegas.
Três obras de suma importância e que devem ser lidas e assistidas!

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