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agosto 2015

Books

#Resenha: A Lista Negra – Jennifer Brown

Sabe aquele livro que mexe fundo com você? Foi assim com A Lista Negra, da Jennifer Brown. Não tinha ouvido falar sobre este livro até pouco tempo atrás, mas assim que assisti um vídeo falando sobre ele, já me interessei e passou para o topo da minha must read. E não me arrependi, o livro é sensacional.

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Valerie Leftman é uma estudante do ensino médio que não se encaixa nos padrões da maioria, tem poucos amigos e namora Nick, que também sempre fugiu do padrão. Além do bullying constante que sofre na escola, Val passa por vários problemas em casa. Seus pais praticamente não se falam e quando o fazem é somente para brigar. Um dia, cansada de tudo, ela resolve fazer uma lista com todas as pessoas e situações que lhe perturbam e que ela gostaria que desaparecessem, A Lista Negra. Ela nem ao menos iria mostrar esta lista para ninguém, era somente um desabafo muito pessoal, mas Nick um dia pega seu caderno e resolve participar também. A vida de Nick também é muito complicada, apesar de frequentar uma escola em que a maioria dos alunos possui uma vida financeira confortável, sua situação familiar é bem diferente. Sua mãe parece não ligar muito pra ele e ele já teve vários padrastos. Apesar de tudo isto, ele é muito inteligente e oferece à Val todo o carinho e apoio que sempre lhe faltaram. Mas Nick também tem um lado sombrio, passa muito tempo pensando na morte, fica obcecado quando houve sobre um tiroteio em uma escola e muitas vezes a raiva que sente chega a assustar Val. Isto tudo piora quando Nick passa a andar muito com um amigo problemático e a se drogar com frequência.

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Quando Val é mais uma vez perturbada por uma colega de classe no ônibus a caminho da escola, ela chega para reclamar com Nick e ele lhe diz que irá resolver a situação. O que ela não podia prever é que ele iria começar um tiroteio em sua escola, que culminaria com a morte de vários alunos e um professor. Apesar de já terem discutido sobre isto, em teoria, Val nunca levou a questão a sério. E nunca cogitou que Nick a levasse também. Ela, então, entra em desespero e tenta impedi-lo. Leva um tiro ao se colocar na frente de uma das colegas que mais a fez sofrer e acorda no hospital para descobrir que Nick se matou e que ela está em um grande problema. A lista é descoberta e todos pensam que ela foi cúmplice.

A história do livro começa com a volta de Valerie para a escola, depois do tiroteio e de meses de recuperação. Acompanhamos sua readaptação, as reações de seus colegas, das vítimas que sobreviveram e dos amigos das pessoas que morreram. A história é muito dolorida e consegue abrir feridas antigas também. Impossível não voltar à sua época de escola e se colocar no lugar dos personagens. Mas, pra mim, o mais pesado foi a relação de Valerie com seus pais. O relacionamento ruim deles acaba piorando muito depois do tiroteio. Saber que até seus pais tem medo dela ou a culpam pesa muito para a personagem.

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Uma história que realmente consegue te tocar e te fazer refletir sobre muitas coisas. Já ouvi várias pessoas falando sobre como este livro deveria fazer parte da grade escolar e concordo plenamente. Talvez poderia impedir grandes danos, principalmente às vítimas de bullying. Excelente!

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Books, Clássicos

#Resenha: Madame Bovary – Gustave Flaubert

Madame Bovary foi publicado em 1857 e causou uma grande comoção, para não dizer escândalo! Seu autor inclusive enfrentou um processo: foi acusado de ofender a moral e a religião. Um dos primeiros romances da escola realista, o livro critica abertamente o período que o antecedeu, o romantismo, além de, através de um de seus personagens, fazer críticas pesadas ao catolicismo.

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A história começa contando sobre a vida de Charles Bovary, um menino não excepcionalmente inteligente e pobre, que através de grande esforço, se torna médico. Charles não é um homem com grandes ambições ou aventureiro, a única que deseja é levar uma vida tranquila, com a família que criar. Ele se casa com uma viúva, mas não é apaixonado por ela. Em uma de suas visitas, para tratar um paciente, conhece sua filha, Emma e logo se encanta. Emma parece ser tudo que um homem poderia querer, educada em um colégio católico, toca piano e, desde que sua mãe faleceu, dirige a casa para seu pai. Quando a esposa de Charles morre, a decisão de casar-se com Emma vem naturalmente.

Logo depois de se casarem, Emma começa a se ressentir de sua vida pacata. Leitora assídua de grandes romances, não consegue enxergar em sua vida as grandes paixões que achou que viveria. Tudo isto culmina quando vai à um baile, em um castelo. Lá ela dança com um visconde, vê as pessoas tão bem vestidas e a casa que ela sempre desejou. Depois de tudo isto, voltar para seu cotidiano se torna insuportável para ela, que de esposa modelo, passa a não ligar mais para seus deveres.

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Charles é completamente devotado a Emma e acredita que ela esteja doente, sofrendo dos nervos. Neste momento, ele recebe uma proposta de trabalho irrecusável. Um pequeno vilarejo que está sem médico. Esta é uma oportunidade para que ele cresça profissionalmente e também para proporcionar uma mudança de ares para Emma, que está grávida.

Ao chegar em seu novo lar, em uma pequena cidade, Emma conhece Léon Dupuis, o escrevente da cidade. Léon e Emma logo estabelecem uma conexão muito forte, apaixonados por arte e literatura, acabam se apaixonando. Mas Léon tem medo de se declarar e ser rejeitado, pois vê Emma como a mulher perfeita, sem vícios. Emma, por sua vez, se sentindo intensamente culpada por seus sentimentos, passa a se esforçar para ser a mulher mais virtuosa que poderia. O rapaz então resolve ir para Paris, para esquecer seu amor, que ele julga não correspondido.

Emma fica profundamente deprimida com sua partida. Nada em sua vida é como ela idealizou, nem mesmo sente grande afeição por sua filha. E quando ela conhece Rodolphe, um homem rico da região, que faz de tudo para conquistá-la, ela acaba cedendo. Mas Rodolphe não está realmente apaixonado por ela, apenas aprecia a conquista.

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Ao decorrer da história, Emma acaba ficando a cada dia mais cínica e infeliz. Afundando em dívidas e em mentiras. Mas esta tristeza também é idealizada por ela, que sempre se considera uma grande vítima do destino.

Apesar de ser bem difícil gostar de Emma, por seu egoísmo e sua arrogância, há um grande teor feminista em sua personagem, que faz com que possamos nos identificar com ela. Ao descobrir que estava grávida, por exemplo, Emma deseja que seu bebê seja um menino, pois um homem pode criar seu próprio destino, não precisa se submeter as mesmas regras que a sociedade impõe às mulheres.

Madame Bovary atravessa séculos e continua extremamente atual, pois trata de grandes temas universais. Até mesmo a crítica feita por Flaubert aos romances lidos pela protagonista, que a levam a desejar uma vida completamente idealizada, podemos trazer para nossa realidade, onde a exposição às redes sociais muitas vezes tem o mesmo efeito sobre nós, nos fazendo acreditar que a vida das outras pessoas é muito mais feliz do que a nossa.

Uma leitura deliciosa (a escrita de Flaubert é primorosa) e que vai lhe fazer parar para pensar em diversos assuntos polêmicos e necessários.

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Books

#Resenha: The Stranger Beside Me – Ann Rule

Theodore Robert Cowell, a.k.a. Ted Bundy foi um dos mais temidos serial killers da história. Estima-se que tenha matado pelo menos 35 mulheres, no período entre 1974 e 1978, em diversos estados dos EUA. Foi condenado por seus crimes à pena de morte e executado na Flórida, em 24 de janeiro de 1989. Sua história alcançou imensa repercussão e foi contada em diversos livros. Mas o que realmente se destacou foi The Stranger Beside Me, escrito por Ann Rule, na época uma ex-policial de meia idade, que acabara de passar por um divórcio e sustentava sua família escrevendo artigos sobre crimes. Até aí, nada demais. Ann foi contratada para escrever um livro sobre a série de assassinatos que assolou Washington, em 1974. O que ninguém poderia prever era que ela conhecia o assassino. Na verdade, era um amigo que havia sido bem próximo à ela: Ted Bundy.

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Ted nasceu em 1946, em Vermont. Sua mãe, Eleanor Louise Cowell, era muito jovem e solteira. A identidade de seu pai nunca foi revelada. Na época, para evitar um grande escândalo, Louise foi para Vermont ter seu filho e ele foi criado como seu irmão, em seus primeiros anos de vida. Posteriormente, Louise deixaria a casa de seus pais e se mudaria com Ted para Tacoma, onde conheceria seu futuro marido, Johnny Culpepper Bundy, que daria o sobrenome para seu filho.

Apesar de sempre ter mencionado uma infância feliz, quando vivia com seus avós, e sempre ter tido seu avô como um verdadeiro modelo, foi revelado depois de seu julgamento que seu avô era na verdade um homem violento e preconceituoso, que aterrorizava sua família.

Ted foi um menino tímido na escola, mas ao alcançar a faculdade, começou a desabrochar. Muito inteligente, carismático e bonito, logo começou a chamar a atenção de seus professores. Mas ainda não tinha determinação suficiente para alcançar algo palpável. Em 1967, aos 21 anos, se apaixonou pela primeira vez por Leslie Holland, conhecida pelo pseudônimo do livro Stephanie Brooks, uma garota de cabelos castanhos, repartidos ao meio, inteligente, bonita e rica. Apesar de Ted estar completamente apaixonado e acreditar que ela era a mulher ideal, Stephanie não via de maneira tão intensa seu relacionamento e, ao se mudar para começar sua carreira, resolveu terminar seu relacionamento com Ted, por não acreditar que ele tinha uma perspectiva definida.

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O fim de seu relacionamento mexeu intensamente com Bundy, que sempre tivera complexos sobre seu valor e como as mulheres que ele admirava o enxergavam. Em 1969, ele finalmente resolve esclarecer suas dúvidas sobre seus verdadeiros pais e, apesar de já saber da verdade, ter em mãos sua certidão de nascimento é devastador.

Ted, então, resolve colocar em ação um plano para reconquistar Stephanie, mesmo tendo conhecido e se envolvido, neste meio tempo, com Meg Anders, a.k.a. Elizabeth Kloepfer, uma jovem recém-divorciada, com uma filha, que ficaria ao lado de Bundy até tempos depois de sua prisão. Bundy começa sua carreira política, auxiliando na campanha de reeleição do governador Daniel J. Evans e continua seus estudos, na esperança de entrar para a faculdade de Direito.

Em 1973, Bundy entra para a faculdade de Direito e encontra-se com Stephanie. Impressionada com sua mudança, ela se apaixona por Bundy e quando em um encontro com amigos, ele diz que estão noivos, ela aceita com facilidade. Mas, assim que consegue seu objetivo, Ted se torna frio e distante e abandona Stephanie. Neste momento, começam as mortes e ataques em Washington. As vítimas seguem um mesmo padrão, mulheres jovens, bonitas e inteligentes, em sua maioria com cabelos castanhos, usados repartidos ao meio.

Os assassinatos seguiriam Bundy pelos vários estados por que passou ou morou. Após ser finalmente identificado, Ted é inicialmente condenado apenas pela tentativa de sequestro de Carol DaRonch, vítima que saiu ilesa de seu ataque, pois apesar dos inúmeros assassinatos, Bundy era incrivelmente cuidadoso. Nada era encontrado nas cenas de crime e muitas vezes parecia impossível a forma como suas vítimas apenas desapareciam sem deixar rastros, em um curto espaço de tempo.

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Carol DaRonch

Mas Bundy era acusado de assassinatos no Colorado, para onde foi transferido para aguardar julgamento. E é no Colorado que Bundy tenta fugir pela primeira vez. Ao requisitar a oportunidade de ser seu próprio advogado, Ted ganha acesso à biblioteca para preparar sua defesa e escapa p ela primeira vez, ficando foragido por uma semana. Após ser encontrado e voltar para a prisão, Ted começa a pensar em um plano superior e em 30 de dezembro de 1977, consegue finalmente escapar da prisão. Sua fuga só seria percebida no dia 31, quando Ted já estava a caminho de seu novo destino, Tallahassee, Flórida.

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Apesar de sua intenção de um novo começo, ao chegar na Flórida, evitando qualquer problema que o levasse de novo para a cadeia, Ted não consegue ficar muito tempo inativo e dá início há alguns de seus mais terríveis crimes, como o ataque na casa da fraternidade Chi Omega. É preso, novamente, em 12 de fevereiro. Ironicamente, Ted fugiu para o pior lugar que poderia ter escolhido, um estado que havia condenado vários assassinos à pena de morte.

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Ann havia conhecido Ted, em 1971, quando trabalharam juntos em um centro de controle de crises, em Seattle. Os dois trabalhavam sozinhos, de madrugada e ela nunca se sentiu insegura ao lado dele. Pelo contrário, ele fazia questão de acompanha-la até seu carro, para que não houvesse nenhum perigo. Ele foi um grande amigo para ela nos momentos difíceis que passou, no período de sua separação.

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Ann Rule

Apesar de ter visto a semelhança de Ted com o retrato falado do assassino e de ter até mesmo dado esta dica aos investigadores, Ann não acreditava que seu amigo Ted fosse realmente o assassino e quando ele ligou para ela de Salt Lake City, antes de seu primeiro julgamento, para que ela sondasse os policiais de Washington sobre as queixas contra ele, Ann não sabia da gravidade e extensão das acusações que enfrentava.

Em seu livro, Ann nos conta sobre todo seu relacionamento com Ted, suas dúvidas e até mesmo a dificuldade em aceitar sua culpa. Mesmo sabendo de seu contrato para escrever um livro sobre os assassinatos, Ted continuou a escrever e ligar para Ann, até seu julgamento na Flórida. Após sua condenação e a publicação de The Stranger Beside Me, o relacionamento entre os dois passou a quase nada. Algumas cartas, no início bem ressentidas de Ted, que acreditava, talvez, que ela o descreveria como inocente, o que é claro ela não fez. Mas tudo indica que ele a perdoou posteriormente.

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O livro é muito bom! Tem uma perspectiva completamente diferente das outras publicações de True Crime, por este relacionamento entre escritor e criminoso. Ann nos leva a ter também um relacionamento com Ted, através de suas experiências com ele, boas e más. Podemos ver o grande conflito em que ela se encontrou, entre sua lealdade com ele e o horror que seus crimes lhe causaram. Realmente, único!

O livro traz vários capítulos posteriores, com informações sobre recursos que os advogados de Bundy interpuseram, especialmente para adiar sua morte e também com novas descobertas sobre seus crimes, como os indícios de necrofilia e relatos de mulheres que acreditavam ter escapado dele. Alguns destes capítulos são realmente necessários e interessantes. Mas conforme os anos vão se passando e novos adendos são inseridos, acabam ficando bem cansativos, o que culmina no prólogo da edição que li, um capítulo escrito pela filha de Ann Rule, que na minha opinião foi completamente desnecessário.

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