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Março 2015

Books

#Resenha: A Mulher Calada – Janet Malcolm

“Como o leitor sabe, eu também escolhi um lado — o dos irmãos Hughes e Anne Stevenson — e também recorro a minhas simpatias e antipatias em apoio de minha escolha. Minha narrativa sobre Rose tem espinhos; minha tesoura folheada de prata resiste a custo à tentação de podá-la. Em outro contexto — ou seja, se eu tivesse lido The haunting of Sylvia Plath como um livro sobre um tema em que não investi coisa alguma —, ele não teria despertado em mim nada além de admiração, já que tendo a apoiar os novos teóricos da literatura em seu debate com os tradicionalistas. Mas no debate Plath-Hughes minha simpatia está com os irmãos Hughes, e assim, como um advogado apresentando uma defesa que sabe ser fraca mas ainda assim considera justa por alguma razão obscura, eu me encouraço para resistir aos atrativos da testemunha mais forte e plausível da oposição.”

A Mulher Calada – Janet Malcolm

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Bom, este trecho do livro já deixa bem claro que esta não é uma biografia de Sylvia Plath. Apesar de trazê-la na capa e fazer dela o centro de sua sinopse:

“A Mulher Calada – Uma das poetas mais originais do século XX, Sylvia Plath se suicidou no inverno de 1963, poucos meses depois de se separar do marido, o também poeta Ted Hughes. Esse gesto último selou, em torno de sua vida e sua obra, um campo de forças tão poderoso que ainda hoje continua a opor não só os vivos aos mortos, como todos os que sobreviveram à tragédia.  Neste livro, Janet Malcolm se debruça sobre todas as biografias já escritas sobre Sylvia Plath, além de adentrar um intrincado mundo de cartas, arquivos e delicadas situações familiares. Dotada de elegância e senso narrativo excepcionais, Malcolm mescla psicanálise, poesia, biografia e reportagem, num ensaio de amplitude e profundidade surpreendentes, capaz de envolver o leitor com o magnetismo de uma trama policial.”

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Como a autora bem explica em um texto logo antes deste que escolhi para começar esta resenha, quando traz uma citação do livro de Jacqueline Rose: Como uma criança envolvida num caso terrível de divórcio entre seus pais, tudo que foi escrito sobre a vida de Sylvia Plath, tanto por ela própria quanto pelos que a conheceram, torna imperioso para cada um de nós — e ao mesmo tempo nos impossibilita — escolher um lado. Em quem devemos acreditar? Como podemos saber? Qual é a verdade do caso? Por trás do interesse próprio dos protagonistas, desenrola-se um drama sobre os limites e os fracassos do conhecimento e do autoconhecimento. Podemos tentar chegar a uma sentença decisiva, como ocorre nos casos de divórcio, mas só se aceitarmos as formas falsas e nocivas de certeza pelas quais essas sentenças são tão famosas.”, ao que Janet atalha: “O que Jacqueline Rose deixa fora de seu relato (e seus colegas da academia deixaram fora do relato em seus textos ansiosos e retorcidos sobre outro terrível caso de divórcio, o de Paul de Man e seu jornalismo de tempos de guerra) é a impossibilidade psicológica, para um escritor, de deixar de escolher um dos lados. “Torna imperioso para cada um de nós”, sim. Mas “nos impossibilita”, não. Na falta de alguma certeza “falsa e nociva”, é humanamente impossível escrever sobre qualquer assunto. Como o assassino, o escritor precisa de um motivo.”, isto também se prova verdade sobre o leitor. Não há como não escolher um lado na história de Sylvia Plath e Ted Hughes. E meu lado escolhido foi o de Sylvia. Fica clara então minha decepção ao ver que estava lendo um longo texto em “defesa” de Anne Stevenson e Ted e Olwyn Hughes.

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Anne Stevenson foi uma contemporânea de Janet Malcolm em sua universidade. Era cercada de uma aura de confiança e liberdade e já havia ganhado um prêmio literário sério naquela época. Portanto, apesar de não terem contato, figurava no imaginário de Janet como uma inspiração. Escreveu anos depois Correspondences, um livro de poemas que teve grande aceitação do público. Se Sylvia não tivesse se suicidado, teria praticamente a mesma idade de Janet e Anne. Como Anne, havia saído dos EUA e se mudado para a Inglaterra, após o casamento e havia encarado o mesmo choque cultural. Talvez por estas semelhanças entre as duas, Anne Stevenson foi convidada, em 1985, para escrever um ensaio biográfico de 100 páginas para uma série da Penguin, Vida das Mulheres Modernas. Quando ela concluiu seu rascunho inicial, resolveu enviar o primeiro e último capítulo para Ted Hughes. Mas, além do fato de Hughes estar no exterior na época, com sua esposa Carol, sua irmã Olwyn era quem realmente se encarregava de tomar a frente, seja como executora do espólio literário de Sylvia, como do contato com os biógrafos que continuavam a surgir.

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O rancor dos irmão Hughes quanto aos biógrafos é palpável e Olwyn é a que mais ruidosamente se expressa a respeito. Mas, quando ela respondeu a Anne, apesar de dizer que achava que ela havia se equivocado em diversas partes, disse que gostara de seu estilo literário e convidou-a para um almoço. Neste encontro, Olwyn lhe entregaria algumas cartas de Dido Merwin escritas para uma das biógrafas de Sylvia, Linda Wagner-Martin, que segundo ela iriam mostrar a Anne uma face completamente diferente de Sylvia.

“Dido Merwin não suportava Sylvia Plath e esperou trinta anos para dizer ao mundo o que achava de sua ex-“amiga”, retratando-a como a mulher insuportável de um mártir paciente e sofredor. Segundo ela, o surpreendente não é que Hughes tenha deixado Sylvia Plath, e sim que a “tenha aguentado por tanto tempo”. Depois da separação, escreve ela, perguntou a Hughes “o que fora mais difícil de suportar durante o tempo que ele e Sylvia ficaram juntos”, e ele revelou que Sylvia Plath, num ataque furioso de ciúme, picara em pedacinhos toda sua obra em andamento no inverno de 1961, bem como seu exemplar das obras de Shakespeare. E Merwin também relembra, como se tivesse acontecido apenas ontem, uma temporada desastrosa que Plath e Hughes passaram com ela e seu então marido, o poeta W. S. Merwin, na chácara que tinham na Dordogne. Sylvia Plath “gastava toda a água quente, servia-se o tempo todo na geladeira (comendo no café o que estava reservado para o almoço etc.) e mudou de lugar todos os móveis do seu quarto”. Criava um clima tão desagradável com sua melancolia (embora nunca perdesse o apetite, assinala Merwin, relatando a malignidade com que viu Sylvia Plath devorar um esplêndido foie gras “como se fosse um simples bolo de carne”) que Hughes acabou encurtando a duração de sua visita. Anne Stevenson foi violentamente criticada por transmitir uma ideia “desequilibrada” de Sylvia Plath ao incluir esse retrato venenoso em sua biografia.”

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Quando se encontraram novamente, Olwyn propôs a Anne que retirasse seu texto da Penguin e o expandisse para uma biografia completa. Olwyn possuía uma pequena agência literária e conduziria as negociações do livro de Anne com as editoras nos EUA e Inglaterra, conseguindo adiantamentos substanciais. Além de dar acesso a Anne à amigos leais de Ted, que iriam lhe contar o que há anos guardavam em silêncio, esperando por um biógrafo de confiança.

“Nesse ínterim, Hughes voltara para a Inglaterra, tendo escrito a Anne uma longa carta sobre os dois capítulos que ela lhe enviara. À diferença das quinze páginas de comentários lacônicos e sarcásticos que enviara a Linda Wagner-Martin depois de ler o manuscrito desta alguns meses antes (“página 201, linha 4: cortar ‘fazendo amor’”; “página 200, linha 6: cortar ‘e cortou… rosto’”; “página 273, linhas 27-28: mencionar esses detalhes ínfimos parece burlesco; eliminar”), a carta de sete páginas que Hughes enviou a Anne era amigável, respeitosa e (considerando sua política reservada) notavelmente generosa em detalhes sobre sua vida com Sylvia Plath. No final, essa carta não foi apenas a primeira, mas também a última que Hughes enviou a Anne enquanto ela escrevia Bitter fame. Na época, porém, atuou como um estímulo poderoso; ser lisonjeada pelas atenções do irmão, além da irmã, tornava a proposta impossível de recusar.”

Olwyn cumpriu o que prometeu a Anne conseguindo adiantamentos, lhe dando acesso a seus amigos, lendo seus esboços e, principalmente, dando acesso a Ted.

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“Anne já compartilhava a opinião de Olwyn, segundo a qual Sylvia Plath era uma poetisa brilhante mas uma pessoa cansativa e detestável, e ela e Olwyn se reuniam na casa desta (àquela altura, Anne vivia em Londres com seu futuro marido, Peter Lucas) e conversavam sobre Sylvia com a espécie de deliciosa má vontade a que nos permitimos com amigos próximos de mentalidade parecida. Com toda a probabilidade, foi essa evidência dos sentimentos negativos de Anne em relação a Sylvia Plath, e não seu “estilo contido e tenso”, que tinha atraído o interesse de Olwyn, fazendo-a crer que finalmente encontrara a biógrafa ideal — a biógrafa capaz de retratar Sylvia Plath de maneira a contrabalançar a imagem idealizada pelos libbers.”

Mas, neste ínterim, Anne resolver viajar aos EUA, para trabalhar melhor em seus capítulos iniciais, utilizando as cartas e arquivos guardados de Sylvia, na Biblioteca Lilly. E foi entre estas cartas que Anne finalmente descobre Sylvia e começa a nutrir por ela uma admiração verdadeira, que até então, não sentia.

“Talvez fosse minha reação ao tom desinibido daquelas cartas, nenhuma das quais fora cortada para seu uso pelos biógrafos e que tratavam todas elas de circunstâncias presentes, ainda não ficcionalizadas, ainda ocupadas em acontecer […]. Senti em Indiana que finalmente encontrara Sylvia Plath; e que gostava mais dela, porque agora eu a conhecia. Voltei a seu diário, que li com uma compreensão renovada […]. Comecei a entender, acho eu, por que ela se transformara numa poetisa extremista, incapaz de concessões. Nenhuma posição intermediária lhe serviria […]. Noite após noite, eu emergia, atarantada, do arcondicionado da biblioteca para a umidade opressiva das noites chuvosas de Indiana. (Eu me esquecera da sensação pesada e pegajosa dos verões do Meio-Oeste.) Vivendo a vida de Sylvia no lugar da minha, experimentei pela primeira vez o sentimento intenso de identificação com minha biografada que a maioria dos biógrafos sente antes mesmo de dar início às suas pesquisas. Compreendi, com tristeza, que eu admirava Sylvia, mas jamais gostara dela. Mesmo antes de começar a trabalhar com Olwyn Hughes, eu já me sentia repelida pela impressão que ela me dava, de uma absorção crua em si mesma e uma ambição agressiva. Agora, pensei, estava começando a vê-la de forma mais clara. Decidi retornar a Londres e recomeçar a trabalhar em Bitter fame desde o início. Dessa vez, estava certa de que poderia produzir uma biografia crítica por mim mesma.”

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Olwyn, obviamente, se interpôs a esta ideia e as duas começaram um longo embate sobre o teor do livro, que teve que ser mediado por um “árbitro”, quando chegou ao ponto das duas não se falarem mais. Mesmo assim, o livro foi lançado e espezinhado pela crítica e público, que podiam notar em cada página que não estava lendo somente a opinião da autora, a presença da censura dos irmãos Hughes era palpável.

Tenho absoluta certeza que o convívio com Sylvia Plath não era nem um pouco fácil. Afinal de contas, ela sofria de depressão há anos e não só por isso, o convívio com um gênio nunca foi descrito por ninguém como fácil.

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“Como a vida de Sylvia Plath, sua obra também está cheia de silêncios ameaçadores. É bela, severa e muito fria. É surrealista, com toda a ameaça do surrealismo e sua recusa a explicar-se. Diante dos poemas de Ariel, sentimo-nos como Olwyn diante da impassibilidade de Sylvia. Sentimo-nos reduzidos à humildade e censurados, como se fôssemos as “pessoas pequenas e socadas” que Sylvia Plath via no hospital ou os herbívoros que descreve em seu poema “Mystic”, “com esperanças tão rasteiras que se sentem confortáveis”. Dizer que Sylvia Plath abusou de seu direito a nossa simpatia não é muito preciso. Ela nunca pede a nossa simpatia; não se rebaixaria a tanto. A voz de sua “verdadeira identidade” é notável por seu tom agudo de desdém — e sua profunda melancolia.”

Mas considerar Olwyn e Ted como mártires, pelo escrutínio que sofreram através dos biógrafos e admiradores de Sylvia também me parece completamente desmedido. Principalmente, quando analisamos o controle que fizeram de sua obra. A cada vez que é citado o controle sobre o espólio literário de Sylvia, não posso deixar de sentir um arrepio de raiva. Afinal de contas, quem são os irmãos Hughes para decidir quais os poemas de Sylvia que podem ser publicados? E mais, se prezam tanto por manter sua intimidade, por que publicar seus diários? Mas, mais que isso, os publicam incompletos, retirando as partes que lhes desagradam. Utilizam as permissões para a citação da obra de Sylvia em suas biografias como moeda de troca com os autores.

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Em um trecho do livro, Janet cita uma carta de Ted à mãe de Sylvia sobre a possibilidade da venda dos direitos de A redoma de Vidro nos EUA:

“Uma carta inédita que Hughes escreveu à sra. Plath sete anos depois da morte de Sylvia nos propõe uma resposta possível. A carta está no arquivo Plath da Biblioteca Lilly, na Universidade de Indiana em Bloomington — uma imensa coleção de cartas escritas e recebidas por Sylvia Plath, além da correspondência da família escrita após a sua morte. (A sra. Plath vendeu sua coleção à Lilly em 1977.) Na carta, datada de 24 de março de 1970, Hughes fala à sra. Plath de uma casa que deseja comprar na costa norte de Devon — “um lugar inacreditavelmente bonito” —, mas para a qual não tem dinheiro. Não quer vender uma casa que acabara de comprar em Yorkshire (“um investimento de primeira”) e nem quer (“por razões, como se diz, sentimentais”) vender Court Green, onde voltou a morar com as crianças depois da morte de Sylvia Plath (e onde mora ainda hoje, com Carol, sua segunda mulher). “Por isso”, diz ele à sra. Plath, “estou tentando liquidar todos os meus outros bens e o que me ocorre é The bell jar.” Ele pergunta à sra. Plath o que ela “acharia de publicar o livro agora nos Estados Unidos”, acrescentando que dali a alguns anos ele “não seria mais muito vendável”, transformando-se numa simples “curiosidade para estudiosos”. A sra. Plath, é claro, tinha horror ao livro e escreveu a Hughes uma carta vigorosa de protesto: preferia que The bell jar não fosse publicado nos Estados Unidos. Mas no final da carta, “de uma pessoa inteligente e madura para outra”, ela acaba cedendo. “Já que o direito de publicação é seu, a decisão também lhe cabe”, diz ela, com uma afetação suspeita. Assim, em 1971, The bell jar foi lançado nos Estados Unidos. A sra. Plath aguentou firme e finalmente exigiu em pagamento sua libra de carne: pediu a Hughes sua permissão para publicar as cartas que Sylvia lhe escrevera. Hughes não tinha como recusar.”

No posfácio da autora, ela esclarece, com trechos de cartas de Ted, que este resolveu não publicar o livro nos EUA, mesmo com a concordância da Sra. Plath e desistiu da compra da casa. Mas logo despois, com a descoberta de uma lei americana que prevê que as obras de um autor americano escritas no exterior perdem o direito de autor, após sete anos da morte deste. Ou seja, se não lançassem, a obra seria publicada do mesmo jeito. Mas tudo isto não muda o teor extremamente comercial da carta originalmente enviada à Sra. Plath.

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O livro é muito bem escrito e apesar de não ser o que esperava nos dá uma boa perspectiva de toda a situação. Em nenhum momento ataca Sylvia e também não deixa de nos mostrar muito sobre Ted. E como tudo na vida tem dois lados, é bom que o livro possa nos apresentar uma perspectiva mais completa. Parece contraditório dizer isto depois de citar meu descontentamento com a defesa dos irmãos Hughes, mas o que não é contraditório em tudo isto? E como diria Nelson Rodrigues: “Na hora de odiar, ou de matar, ou de morrer, ou simplesmente de pensar os homens se aglomeram. (…) A opinião unânime está a um milímetro do erro, do equívoco, da iniquidade. (…) Toda unanimidade é burra. Quem pensa com a unanimidade não precisa pensar.”

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Books, Filmes

#Resenha: Comer, Rezar, Amar – Elizabeth Gilbert

“É melhor viver o seu próprio destino de forma imperfeita do que viver a imitação da vida de outra pessoa com perfeição.”

Comer, Rezar e Amar possui um subtítulo sugestivo: a busca de uma mulher por todas as coisas da vida na Itália, na Índia e na Indonésia. Nele, Liz Gilbert, irá nos contar como, ao final de um complicado divórcio e saindo de um relacionamento nocivo, decidiu pedir demissão de seu emprego, desistiu de seu apartamento e passou um ano morando nestes lugares.

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Com 31 anos, Liz chegou à conclusão de que não queria mais estar casada.

“Mas todos esperavam que eu quisesse ter um filho. Eu estava com 31 anos. Meu marido e eu – estávamos juntos havia oito anos, sendo seis casados – havíamos construído nossa vida inteira com base na expectativa comum de que, uma vez superada a avançada marca dos 30 anos, eu iria querer sossegar e ter filhos. Ambos esperávamos que, a essa altura, eu já tivesse me cansado de viajar e fosse ficar feliz em morar em uma casa grande e barulhenta, cheia de crianças e de colchas feitas a mão, com um jardim nos fundos e um reconfortante ensopado borbulhando em cima do fogão. (…) Mas eu não queria nenhuma dessas coisas – e estava arrasada por estar me dando conta disso. Pelo contrário: meus 20 anos haviam chegado ao fim, aquele prazo final dos 30 havia se abatido sobre mim como uma sentença de morte, e eu descobri que não queria engravidar. Continuava esperando querer ter um filho, mas isso não acontecia. E eu conheço a sensação de querer alguma coisa, podem acreditar. Sei muito bem o que é desejo. Mas esse desejo não existia.”

Apesar de ser evidente que ela não estava preparada para aquilo, Liz relutava quanto ao que poderia fazer. Afinal de contas, não era fácil desistir de uma vida “perfeita”, uma vida completamente de acordo com os padrões esperados.

“Adoro crianças, mas e se eu não tiver filhos? Que tipo de pessoa isso me torna? Virginia Woolf escreveu: “Sobre o imenso continente da vida de uma mulher recai a sombra de uma espada.” De um lado dessa espada, disse ela, estão a convenção, a tradição e a ordem, onde “tudo é correto”. Mas, do outro lado dessa espada, se você for louca o suficiente para atravessar a sombra e escolher uma vida que não segue a convenção, “tudo é confusão. Nada segue um curso regular”. Seu argumento era que atravessar a sombra dessa espada pode proporcionar à mulher uma existência muito mais interessante, mas podem apostar que ela também será mais perigosa.”

Depois de muito lutar contra seus próprios desejos, Liz finalmente se separa. Seu divórcio é extremamente doloroso e em meio a este turbilhão ela conhece David e, imediatamente, se apaixona.

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“David e eu nos conhecemos porque ele estava atuando em uma peça baseada em contos meus. Ele fazia um personagem que eu havia inventado, o que é de certa forma revelador. No amor desesperado é sempre assim, não é? No amor desesperado, nós sempre inventamos os personagens dos nossos parceiros, exigido que eles sejam o que precisamos que sejam, e depois ficando arrasados quando eles se recusam a desempenhar o papel que nós mesmos criamos.”

Mas, Liz não estava vivendo um bom momento e acaba despejando todas as suas expectativas e carência sobre ele. A relação tornou-se obsessiva e ele foi se distanciando a cada dia.

Por fim, no auge de seu desgaste emocional, Liz recebe uma proposta de trabalho: uma viagem para Bali para escrever uma matéria sobre as pessoas que vão até lá, nas férias, para praticar ioga. Nesta viagem, ela conhece um xamã, Ketut Liyer, que lhe convida para morar por quatro meses na Indonésia.

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“Você é uma escritora de livros de Nova York — disse ele meneando a cabeça, concordando. – Então você vai voltar aqui para Bali e me ensinar inglês. E eu vou ensinar a você tudo que eu sei.

Ele então se levantou e esfregou as mãos, como quem diz: Então está combinado.

– Se o senhor estiver falando sério, eu também estou – falei.

Ele me olhou com um sorriso de sua boca sem dentes e disse:

– A gente se vê.”

E assim, Liz começa seu ano sabático, em que irá aprender, em cada um de seus destinos, coisas novas sobre si mesma e como alcançar o equilíbrio que tanto busca.

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A história parece simples, mas todo o processo de redescobrimento de Liz, da percepção de suas falhas, do perdão que ela precisa aprender a oferecer, principalmente a si mesma, tocam fundo no leitor e, acompanhando sua jornada, passamos também por um processo de amadurecimento. Em vários momentos, ela se sentirá sozinha, mas reconhece que, às vezes, somente a solidão nos dá a perspectiva necessária para continuar. E em uma sociedade ainda tão padronizada quanto a que vivemos, é maravilhoso ter o exemplo de mulheres que simplesmente não se encaixam, que não possuem os mesmos sonhos da maioria e que não se conformam com a infelicidade.

“Há momentos que temos de procurar o tipo de cura e paz que só podem vir da solidão.”

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Em alguns momentos, principalmente durante a parte da Índia, o livro se torna um pouco maçante. Mesmo assim, a leitura vale a pena. Li pela primeira vez há alguns anos e reli em dezembro e esta é uma daquelas histórias que lhe trazem sentimentos e coisas novas dependendo do momento que você está vivendo. E pra quem sonha em viajar pelo mundo, é simplesmente delicioso!

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Books, Filmes

#Resenha: A Resposta – Kathryn Stockett

Terminei de ler neste final de semana o incrível A Resposta, de Kathryn Stockett. Talvez você não reconheça o título de cara, mas provavelmente já assistiu ou ouviu falar de sua adaptação para o cinema, que recebeu o título Histórias Cruzadas. O filme estreou, nos Estados Unidos, em agosto de 2011 e foi indicado ao Oscar de melhor filme, em 2012.

O livro tem como plano de fundo a pequena cidade de Jackson, no Mississippi, no início da década de 60. A narrativa é dividida entre três personagens: Skeeter, uma jovem branca que acabou de se formar na universidade e sonha em ser escritora e jornalista, Aibileen e Minny, duas empregadas negras que trabalham em casas da cidade.

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Skeeter, Minny e Aibileen

Aibileen teve eu desistir da escola na sétima série, para começar a trabalhar como empregada na casa de famílias brancas da região e ajudar em sua casa. Desde então cuidou de dezessete bebês. Apesar da maioria das empregadas passarem praticamente a vida toda em uma casa, Aibileen mudava constantemente de trabalho, dizendo que era melhor com crianças bem pequenas, praticamente uma especialista. Na verdade, ela se mudava quando as crianças que ela tanto amava e cuidava, passavam a enxergá-la de maneira diferente, pela cor de sua pele.

“Quando eu disse pra minha professora da sétima série que não ia voltar pra escola porque precisava ajudar a minha mãe, dona Ross quase chorou. “Você é a mais esperta da turma, Aibileen”, disse ela. “E o único jeito de você continuar esperta é ler e escrever todos os dias.” Então, comecei a anotar as minhas orações, em vez de dizer elas em voz alta. Mas ninguém mais me chamou de esperta.”

THE HELP

O filho de Aibileen, Treelore, era seu maior motivo de orgulho. Vivia lendo e havia começado a escrever um livro sobre como era ser um homem negro que vivia e trabalhava no Mississippi. Um noite, enquanto trabalhava no moinho, escorregou na plataforma de carregamento e foi atropelado por um trator. O relato da dor que Aibileen sentiu e do descaso com que trataram seu filho é uma das coisas mais doloridas que já li.

“Quando fiquei sabendo, ele tava morto. Foi nesse dia que todo o meu mundo ficou preto. O ar parecia preto, o sol parecia preto. Fiquei deitada na cama, olhando pras paredes pretas da minha casa. Minny vinha todo santo dia ver se eu ainda tava respirando, me dava comida pra me manter viva. Levei três meses pra olhar de novo pela janela, pra ver se o mundo ainda tava no lugar. Fiquei surpresa quando vi que a vida do meu filho tinha parado, mas o mundo não.”,/p>

“Na nossa quinta sessão, Aibileen lê para mim sobre o dia em que Treelore morreu. Ela lê sobre como o corpo quebrado de Treelore foi jogado na caçamba de uma picape pelo mestre de obras. — E então largaram ele no hospital dos negros. Foi isso que a enfermeira me contou, a enfermeira que tava lá fora na hora. Rolaram ele pra fora da caçamba e os brancos foram embora. — Aibileen não chora, apenas deixa um tempo se passar enquanto eu olho para a máquina de escrever, e ela, para as lajotas escuras e gastas.”

Cinco meses após a morte de seu filho, Aibileen vai trabalhar na casa da Srª Leefolt, cuidando de sua filha, Mae Mobley. As duas criam laços muito fortes, especialmente porque Elizabeth, mãe de Mae, não demonstra nenhum afeto pela menina.

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É na casa dos Leefolt que Aibileen e Skeeter começam a estabelecer um vínculo. Em sua busca por uma carreira como jornalista, Skeeter é aconselhada por uma editora de Nova Iorque a buscar um emprego, qualquer emprego, em que pudesse adquirir experiência e, neste período, começar a escrever sobre coisas que lhe incomodam, mas que ninguém mais parece se importar. Ela, então, consegue uma vaga no jornal local para escrever sobre…cuidados domésticos. Além de ter tido uma empregada, Constantine, desde pequena, Skeeter não é como a maioria de suas amigas. Seus planos não têm casamento e filhos como prioridade. Portanto, ela não sabe absolutamente nada sobre como cuidar de uma casa. Skeeter amava Constantine como uma verdadeira mãe e isso nunca mudou. Não havia barreiras no relacionamento entre elas. Mas quando Skeeter retorna da faculdade descobre que Constantine havia se demitido e ido embora da cidade. A história toda lhe parece muito estranha. Afinas, elas se correspondiam praticamente toda semana. Com certeza, Constantine teria lhe avisado. E a recusa de todos em comentar o assunto só lhe confirma a certeza de que algo está errado.

Elizabeth, Skeeter e Hilly eram amigas desde o colégio. Foram juntas para a faculdade e só tomaram caminhos um pouco diferentes quando Hilly e Elizabeth desistiram da faculdade para se casar. Mesmo assim, com a volta de Skeeter para a cidade, as três se reúnem novamente. E Skeeter pede a ajuda de Aibeleen, empregada de Elizabeth, para escrever sua coluna.

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Mas a relação das três amigas começa a sofrer grandes abalos. Diferenças que antes não eram percebidas, passam a ficar evidentes. Uma crise que tem seu auge com o grande projeto de Hilly, que Skeeter se recusa a publicar no jornal da Liga, de que fazem parte: o Projeto de Higiene para Empregadas Domésticas. No Mississippi, tudo era separado entre negros e brancos. Havia bairros específicos, as empregadas não se sentavam na mesma mesa que suas patroas, não utilizavam os mesmos talheres e não podiam dividir…os mesmos banheiros.

“Na sala sobre a história do Mississippi, procuro qualquer coisa que fale remotamente de relações inter-raciais. Encontro apenas livros sobre a Guerra Civil, mapas e velhos catálogos telefônicos. Eu me equilibro nas pontas dos pés para ver o que está na prateleira mais alta. É aí que enxergo um livreto, deitado de lado em cima do Mississippi River Valley Flood Index. Uma pessoa de tamanho normal nunca o teria visto. Puxo-o para baixo, para ver a capa. O livreto é fino, impresso em papel vegetal, um pouco amassado, encadernado com grampos. “ Compilation of Jim”“ Crow Laws of the South”, diz a capa. Abro o livro, que estala e faz um pouco de barulho. O livreto é simplesmente uma lista de leis dizendo o que pessoas de cor podem e não podem fazer em vários estados sulistas. Passo os olhos pela primeira página, intrigada sobre a razão de isso estar aqui. As leis não são nem ameaçadoras nem amigáveis, apenas citam os fatos: Ninguém pode solicitar que uma mulher branca amamente em alas ou quartos onde haja homens negros. Será considerado ilegal que um branco se case com qualquer pessoa que não seja branca. Qualquer casamento que viole esta seção será considerado nulo. Nenhum barbeiro de cor poderá trabalhar para mulheres ou meninas brancas. O oficial encarregado não poderá enterrar qualquer pessoa de cor no solo usado para o enterro de pessoas brancas. Livros não deverão ser trocados entre escolas de brancos e escolas de gente de cor, mas deverão continuar sendo usados pela raça que primeiro os utilizou. Leio quatro das vinte e cinco páginas, estupefata com a quantidade de leis que existem para nos separar. Negros e brancos não podem partilhar bebedouros, cinemas, banheiros públicos, estádios, cabines telefônicas, espetáculos de circo. Negros não podem usar a mesma farmácia nem comprar selos no mesmo guichê que eu. Penso em Constantine, na vez em que minha família a levou para Memphis, e a estrada foi totalmente lavada pela chuva, mas tivemos de seguir adiante, pois sabíamos que os hotéis não a admitiriam. Penso em como ninguém no carro falou nada. Todos nós sabemos dessas leis, vivemos aqui, mas não falamos a respeito delas. Essa é a primeira vez que as vejo escritas.”

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E é neste momento que a ideia surge na mente de Skeeter, um livro em que as empregadas contariam sua versão de como é viver e trabalhar em Jackson. Mas esta ideia, em si, é perigosa para todos os envolvidos. Tanto Skeeter quanto as empregas, se alguma delas aceitasse participar, correriam o risco de serem presas. Além de casos de violência registrados a cada dia contra pessoas negras que “ousavam” reclamar ou tentar mudar algo.

Aibileen é a primeira a ser convidada para o projeto. Depois, Minny, sua melhor amiga e uma personagem sensacional. Com o passar do tempo, vamos conhecendo as histórias destas grandes mulheres, da sua relação de amor e ódio com as famílias para que trabalham, como é cuidar dos filhos de seus patrões, enquanto seus próprios são criados por outras pessoas. E como estas crianças que criaram e amaram, na maioria das vezes, se transformam em seus pais.

O clima de medo e incerteza pode ser sentido a cada página. Cada um dos personagens nos proporciona emoções extremas: amor, ódio, compaixão. Um tapa na cara, nos mostrando um pouco da luta que já foi enfrentada contra o preconceito.

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Livro obrigatório!!!

“— Bem — respirei fundo. — Eu gostaria de escrever sobre isso, mostrando o ponto de vista das empregadas. As mulheres de cor daqui. —Tentei imaginar o rosto de Constantine, o de Aibileen. — Elas criam uma criança branca, então, vinte anos depois, a criança se torna seu empregador. É essa ironia, nós as amamos e elas nos amam, e ainda assim… — Engoli a saliva, com a voz tremendo. — Sequer permitimos que usem o banheiro da casa. Mais uma vez, silêncio. — E — me senti compelida a continuar — todo mundo sabe o que pensam os brancos, a figura glorificada de Mammy, que dedica toda a vida a uma família branca. Margaret Mitchell já fez isso. Mas ninguém nunca perguntou a Mammy o que ela pensava disso tudo. — Suor escorria pelo meu peito, molhando minha blusa de algodão. — Então você quer mostrar um lado que nunca foi examinado — disse a sra. Stein. — Sim. Porque ninguém nunca fala a respeito disso. Ninguém nunca fala sobre nada, aqui.”

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Books

A Redoma de Vidro – Sylvia Plath

Lembro de uma tarde, quando era bem nova, provavelmente tinha uns 10 anos, em que li pela primeira vez sobre Sylvia Plath. Era uma nota de revista, creio que uma crítica de um livro sobre ela. E neste artigo, eles contavam um pouco sobre sua história, principalmente sobre sua morte. Sylvia cometeu suicídio aos 30 anos. Estava em casa com seus dois filhos. Deixou leite e pão para quando eles acordassem, abriu a janela e vedou o quarto das crianças com toalhas molhadas e roupas. Tomou, então, uma grande quantidade de narcóticos e colocou a cabeça dentro do forno, com o gás ligado. Esta história ficou tão marcada em minha memória, que mesmo com o passar dos anos não foi esquecida. E a curiosidade por sua obra só aumentou com o passar do tempo. Seu romance, inspirado nos eventos de seus anos de faculdade, A Redoma de Vidro, passou a fazer parte dos livros que considerava obrigatórios. Por coincidência, lendo o primeiro capítulo de A Redoma de Vidro, vejo uma sensação semelhante à que tive ao ler sobre Sylvia:

“Foi um verão estranho, quente e úmido, quando os Rosenbergs foram eletrocutados, e eu não sabia o que estava fazendo em Nova Iorque. Eu sou uma estúpida em relação a execuções. A ideia de ser eletrocutado me deixava aflita, e era tudo o que se tinha para ler nos jornais – manchetes que chocavam, me encarando em cada esquina e em cada entrada das estações de metrô, bolorentas e invadidas pelo cheiro de amendoim. Não tinha nada a ver comigo, mas eu não podia evitar de me perguntar como seria ser queimado vivo por toda a extensão de seus nervos.”

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A profundidade desta obra de Sylvia é imensa. Somente uma pessoa que realmente vivenciou esta situação, poderia descrevê-la desta maneira. Passar toda esta angústia, que, sim, acaba chegando até o leitor. Como a sombra descrita em um dos trecho do livro.

Eu senti ser engolida pelas sombras como a parte negativa de uma pessoa que nunca vi antes em minha vida.”

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O livro foi escrito foi escrito em 1963. Mas, com certeza, nunca ficará datado, pela natureza atemporal dos sentimentos que aborda. E, principalmente, no momento em que vivemos, com esta obrigatoriedade de ser feliz, ou de pelo menos aparentar ser, a história de Esther não poderia ser mais atual. Afinal, ela estava vivendo o sonho de todas as garotas, quando foi pega no meio de um turbilhão de sentimentos e dúvidas incontroláveis.

A história começa quando Esther Greenwood, uma jovem estudante pobre, que vivia em uma pequena cidade, ganha uma bolsa de estudos para a faculdade e alguns prêmios. Dentre estes, um mês de estágio em Nova Iorque, com todas as despesas pagas, além de vários bônus e conselhos profissionais de pessoas famosas em sua área de interesse, promovido por uma revista de moda.

“Era para eu estar aproveitando aquela experiência ao máximo. Era para eu ser a inveja de milhares de outras universitárias como eu, ao redor da América, que não queriam nada mais que viajar nesses mesmos sapatos de couro envernizado, tamanho trinta e cinco, que comprei na Bloomingdale’s no horário de almoço, com um cinto de couro envernizado preto e uma bolsinha de couro envernizado preta para combinar. E quando minha foto saiu numa revista em que as doze de nós estavam trabalhando – bebendo martinis em minúsculas imitações de corpetes prateados presos numa grande, gorda nuvem de tule branco, em algum Starlight Roof, na companhia de jovens anônimos com as melhores estruturas ósseas contratados ou emprestados para a ocasião – todos deviam estar achando que eu estava num verdadeiro turbilhão.”

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Mas, ao invés de se sentir nas nuvens, como todas as outras garotas, Esther se vê rodeada por sentimentos negativos e começa a desenvolver uma forte depressão.

“Eu sabia que havia algo errado comigo naquele verão, porque tudo o que eu podia pensar era sobre os Rosenbergs e como estúpida eu fui em ter comprado todas aquelas desconfortáveis roupas caras, penduradas frouxas como peixes em meu closet, e como todos os pequenos sucessos que eu acumulei tão alegremente na faculdade se degradavam, reduzidos à nada ante o mármore sofisticado e as fachadas de vidro laminado ao longo da Avenida Madison.”

Na maioria das resenhas que li sobre A Redoma de Vidro, as pessoas se referem à leitura como um soco na boca do estômago. E não acredito que poderia ter uma descrição mais acurada que essa. Porque Sylvia nos faz vivenciar uma dor e uma agonia intensas, como se acontecesse em nossa própria pele.

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 “Eu vi minha vida estendendo seus galhos em minha frente como a figueira verde da história. Da ponta de cada ramo, como um figo roxo e grande, um maravilhoso futuro acenava e piscava. Um figo era um marido e um lar feliz e filhos, e outro figo era uma famosa poetisa e outro figo era uma brilhante professora, e outro figo era E Gê, a editora incrível, e outro figo era Europa e África e América do Sul, e outro figo era Constantin e Socrates e Attila e um pacote de outros amores com nomes esquisitos e profissões incomuns, e outro figo era a campeã da equipe olímpica, e além e acima desses figos haviam muitos outros figos que eu não podia distinguir bem.  Eu me vi sentada na bifurcação dos galhos desta figueira, morrendo de fome, só porque eu não conseguia me decidir de qual figo escolher. Eu queria cada um deles, mas escolher um significaria perder todo o resto, e, enquanto eu estava sentada ali, incapaz de me decidir, os figos começaram a se enrugar e ficarem pretos, e, um por um, eles caíram ao chão, aos meus pés.”

Apesar de ser tão denso e até mesmo incômodo, ao chegar na última página, minha vontade era começá-lo de novo! Não tenho muito mais a dizer, a não ser: Leia!

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P.S.: Ansiosa para começar A Mulher Calada, de Janet Malcolm. Vejam só a descrição:

“A Mulher Calada – Uma das poetas mais originais do século XX, Sylvia Plath se suicidou no inverno de 1963, poucos meses depois de se separar do marido, o também poeta Ted Hughes. Esse gesto último selou, em torno de sua vida e sua obra, um campo de forças tão poderoso que ainda hoje continua a opor não só os vivos aos mortos, como todos os que sobreviveram à tragédia.  Neste livro, Janet Malcolm se debruça sobre todas as biografias já escritas sobre Sylvia Plath, além de adentrar um intrincado mundo de cartas, arquivos e delicadas situações familiares. Dotada de elegância e senso narrativo excepcionais, Malcolm mescla psicanálise, poesia, biografia e reportagem, num ensaio de amplitude e profundidade surpreendentes, capaz de envolver o leitor com o magnetismo de uma trama policial.”

Comecei a ler o prefácio do livro e sem palavras para minha frustração com Ted Hughes, ex-marido de Sylvia, que destruiu o último diário dela, que continha anotações até três dias antes de sua morte!

Ah, A Redoma de Vidro é o livro do mês do Clube do Livro, do Girls With Style! Participe também!!!

Books, Filmes

#Resenha: Alfred Hitchcock e os Bastidores de Psicose – Stephen Rebello

“O cinema deveria ser considerado mais forte do que a razão.”

Alfred Hitchcock

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Terminada a leitura do incrível livro de Stephen Rebello, Alfred Hitchcock e os Bastidores de Psicose. E que leitura deliciosa foi esta! Stephen teve a honra de ser a última pessoa a entrevistar o diretor. Deste fato, misturado com sua paixão por Psicose, veio a ideia de escrever um livro sobre os bastidores do filme.

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Quando Hitchcock comprou os direitos do livro de Robert Bloch não imaginava as dificuldades que enfrentaria em sua produção e muito menos o sucesso estrondoso de bilheteria e posteriormente de crítica que o filme teria.

Apesar de já ter em seu currículo quarenta e seis filmes e três temporadas de sua bem-sucedida série de TV, Alfred Hitchcock Presents, era um momento delicado para o diretor, que a despeito do sucesso de seu último filme, Intriga Internacional, ainda era assombrado pelo fracasso de bilheteria de Um Corpo que Cai, baseado no livro de Pierre Boileau e Thomas Narcejac, D’entre les morts. A mesma dupla havia escrito Celle qui n’était plus, cujos direitos foram comprados por Henri-Georges Clouzot, que o transpôs para o filme As Diabólicas, sucesso de público e crítica. Tudo isto foi ainda mais doloroso para Hitch, pois ele tentara comprar os direitos de As Diabólicas e perdeu para Clouzot por algumas horas.

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Psicose viria a ser o quinto e último filme do contrato de Hitchcock com a Paramount. Os diretores do estúdio porém ficaram perplexos com a ideia. Não viram na trama nenhum requinte, além de temas polêmicos como o travestismo do personagem principal e a relação incestuosa de Norman e sua mãe.

“Ainda assim, mesmo num momento de relativa prosperidade, para as altas patentes da Paramount, Hitchcock e Psicose não pareciam uma boa combinação. Haviam vazado nas conversas de corredor do estúdio os rumores de que o diretor queria tentar “algo diferente”; a mesma motivação que tinha resultado em O homem errado na Warner Bros. e em O terceiro tiro e Um corpo que cai na Paramount — três fracassos de bilheteria.”

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Hitchcock não estava acostumado a receber um não como resposta, assim quando o estúdio negou o financiamento para seu filme, ele resolveu pagar de seu próprio bolso, utilizando as instalações da Universal-International. Restando para a Paramount apenas a distribuição do filme.

Esta não foi a única recusa que seu projeto recebeu, além de ter que trabalhar com um orçamento muito reduzido, vários de seus colaboradores mais próximos se afastaram do projeto.

Mas o desejo de inovar era maior que todas as dificuldades para o diretor. Finalmente, Hitch havia achado um material que realmente lhe interessava.

“O cineasta não estava brincando totalmente quando disse à imprensa: “Se eu dirigisse Cinderela, o público iria esperar um cadáver aparecer na carruagem.” Ou quando comentou com pesar sobre a armadilha na qual havia se aprisionado: “Estilo é autoplágio.” H. N. Swanson, amigo de Hitchcock e agente de autores de suspense como Raymond Chandler e Elmore Leonard, explica da seguinte forma: “Hitch nunca procurava casualmente ‘alguma coisa diferente’. Ele era incansável.” Outro parceiro de longa data do diretor, o agente Michael Ludmer, corroborou: “Nós procurávamos de tudo — peças, romances, contos, recortes de jornal. Mistérios do tipo ‘quem matou?’ estavam fora de questão, e ele desconfiava de ficção científica, do sobrenatural ou de qualquer coisa que tivesse a ver com criminosos profissionais. Como não dava para adivinhar qual seria a pequena faísca que acenderia seu entusiasmo, era terrivelmente trabalhoso coletar material para Hitch.” E foi aí que entrou Psicose.”

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O livro nos leva, passo a passo, por todas as etapas do filme, desde a escolha do roteirista, Joseph Stefano; e do elenco, com o formidável Anthony Perkins e Janet Leigh; as filmagens, com todas as suas particularidades e dificuldades técnicas; as polêmicas que surgiram à partir dos anos sobre a direção da cena do chuveiro; até a escolha da trilha sonora, corte final do filme e divulgação.

Neste processo, conhecemos uma infinidade de personagens brilhantes envolvidos na produção deste filme e de outras grandes obras do cinema. Além de nos dar uma nova perspectiva sobre o diretor: seus defeitos, desafetos, protegidos e sua ferrenha autocrítica.

“Não gosto de conflitos”, disse uma vez o cineasta, “mas não vou sacrificar meus princípios. Estabeleci um limite no meu trabalho. Abomino pessoas que dão menos do que têm de potencial. Isso é fraude (…) e pessoas assim serão excluídas.”

É interessante também perceber que além de um diretor genial, Hitchcock era excelente na divulgação de seus filmes. Trabalhando com um set totalmente fechado e tendo feito todos os participantes do filme professarem um juramento de não divulgar nenhuma de suas surpresas, Hitchcock conseguiu manter o suspense ao máximo. Para isto, até mesmo criou um manual sobre como exibir o filme para os gerentes de cinemas de todo o país. O ponto alto da divulgação foi o trailer de Psicose, onde Hitch nos apresenta o Motel Bates.

“Hitchcock, porém, como mestre da autopromoção, providenciava oportunidades para fotos “improvisadas” assim que surgia uma deixa. O diretor de arte Robert Clatworthy recordou: “Ao longo da filmagem, ele manteve sempre visível uma cadeira com ‘Sra. Bates’ escrito atrás, bem grande. O humor de Hitchcock era assim. Por Deus, a Sra. Bates era uma pessoa real, então tinha de ter uma cadeira.” Num final de tarde, o diretor se acomodou nessa cadeira — uma foto premeditada (e devidamente registrada) como um agrado para os divulgadores do estúdio; mais tarde, todos os principais nomes do elenco, de Martin Balsam a Janet Leigh, também foram fotografados na mesma cadeira. Exceto, claro, Anthony Perkins.”

Mesmo com toda a falta de suporte da Paramount, conseguiu montar uma campanha genial, que se reflete na bilheteria do filme. Psicose custou 800 mil dólares e arrecadou 60 milhões em todo o mundo.

“Intermináveis reprises, imitações e paródias tiraram um pouco do gume afiado de Psicose, principalmente para gerações que aprenderam a confundir jatos de sangue, montagens frenéticas e trilhas sonoras mecânicas com o verdadeiro suspense. Em contraste com as séries Sexta-feira 13 ou A hora do pesadelo e suas muitas crias, a comoção causada pelo filme de Hitchcock pode soar hoje tão incompreensível quanto uma velha série dos primórdios da TV ou um filme mudo. Quem foi criado com Jason e Freddy pode ficar perplexo com o fato de o público de 1960 ter gritado por causa de Norman. Entretanto, se eles tiverem muita sorte, talvez apareça um equivalente contemporâneo de Alfred Hitchcock que os pegue de surpresa e mate de medo os espectadores de filmes dos Estados Unidos mais uma vez.”

Um livro imperdível para quem ama cinema e, principalmente, para os apaixonados por Psicose!

O filme Hitchcock, de 2012, é uma adaptação do livro de Stephen Rebello. Com Anthony Hopkins, no papel de Hitchcock, o filme explora principalmente a relação do diretor com sua esposa e grande colaboradora, Alma. Aspecto em que diverge muito do livro. Não que isto seja ruim. Muito pelo contrário, é o complemento perfeito para o livro de Stephen Rebello.

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Apesar de nunca ter superado o imenso sucesso de Psicose, Hitchcock ainda produziu seis filmes, dentre eles o maravilhoso Os Pássaros, que está na minha lista de favoritos do diretor, junto com Festim Diabólico e Janela Indiscreta. Ver esta referência ao final do filme Hitchcock foi delicioso!

“E respondeu: ‘Eu sempre quero que o público pense o que o personagem está pensando. No momento em que eu perder uma pessoa da plateia, perco todas.’ Então percebi que essa era uma das maneiras de ele manter seus espectadores na beirada da poltrona, ansiosos por absorver todas essas pequenas informações.”

Books, Filmes

Scarlett O’Hara – E o Vento Levou…

“There was a land of Cavaliers and Cotton Fields called the Old South. Here in this pretty world, Gallantry took its last bow. Here was the last ever to be seen of Knights and their Ladies Fair, of Master and of Slave. Look for it only in books, for it is no more than a dream remembered, a Civilization gone with the wind…”

Ben Hecht

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Chegou mais um final de semana e este é muito especial. No domingo, dia 8 de março, é comemorado o Dia Internacional da Mulher. E para celebrar, resolvi falar aqui sobre uma das melhores personagens femininas da história do cinema e da literatura: Scarlett O’Hara, de E o Vento Levou.

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O livro de Margareth Mitchell foi publicado em 1936 e foi vencedor do prêmio Pulitzer do ano posterior. A história começa em 1861, o ano em que foi declarada a Guerra Civil ou Guerra da Sucessão americana. Scarlett é a filha mais velha de um rico produtor de algodão, no sul dos Estados Unidos.  Desde o primeiro momento, fica claro que Scarlett é mimada e egocêntrica.

“Mas, não obstante a simplicidade da saia rodada, a maneira modesta como usava o cabelo, enrolado sobre a nuca e a quietude das pequeninas mãos brancas que lhe repousavam, cruzadas, no regaço, a sua verdadeira personalidade conseguia sobressair. Apesar da expressão calma que a fisionomia normalmente ostentava, os olhos dela eram irrequietos, voluntariosos, cheios de vida, o que estava em completo desacordo, com a sua atitude recatada. As maneiras discretas, estudadas, tinham-lhe sido impostas pelas suaves repressões maternas e pela disciplina mais dura que a ama preta a fizera observar; mas os olhos eram dela, muito seus, e só a ela obedeciam.”

E o Vento Levou – Margareth Mitchell

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Apesar de viver rodeada por inúmeros rapazes da região, é apaixonada por seu vizinho Ashley Wilkes. Mas, contrariando todas as expectativas de Scarlett, ele resolve se casar com sua prima, Melanie. Ter suas vontades contrariadas foi uma verdadeira novidade para ela, que resolve, então, se casar com o irmão de Melanie, Charles, só para se vingar.

Neste mesmo dia, Scarlett conhece Rhett Butler, charmoso, sagaz e com uma reputação arruinada. Ele, apesar de se mostrar interessado por ela, não satisfaz nenhuma de suas vontades e se prova no mesmo nível de astúcia que ela.

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Entra, então, em cena, um dos grandes “personagens” da história: a guerra. Durante todo o período em que pairou a sombra de uma possível guerra entre norte e sul, os sulistas jamais consideraram uma derrota, muito pelo contrário, acreditavam que tinham mais fibra, valores mais elevados e muito mais coragem que seus vizinhos do norte, deixando de considerar seu poderio militar e suas fábricas de munição. E a guerra e posterior derrota do Sul, vem para mudar toda a sua vida. Como na citação que dá início ao filme: “…uma civilização que o vento levou.”

E é neste contexto que Scarlett irá passar pelas maiores provações de sua vida. Enfrentando a morte de familiares e amigos, a angústia pelos que estão lutando na guerra, a pobreza e a fome. Durante a história, ela se verá sozinha e desamparada muitas vezes. Mas lutará, com todos os meios possíveis para sobreviver.

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“As God is my witness, as God is my witness they’re not going to lick me. I’m going to live through this and when it’s all over, I’ll never be hungry again. No, nor any of my folk. If I have to lie, steal, cheat or kill. As God is my witness, I’ll never be hungry again.”

Scarlett tem muitas atitudes equivocadas, a maioria delas provocadas por sua obsessão pelo Ashley. Apesar disso, não tem como não se apaixonar pela personagem. Por sua força, determinação e inteligência. Seus vários defeitos e erros somente a fazem mais completa, mais real. Pensar que uma personagem assim foi escrita em 1936 é realmente impressionante! E em vários trechos podemos identificar, ainda hoje, dificuldades pelas quais toda mulher passa.

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“Estou cansada de ser eternamente antinatural e nunca fazer qualquer coisa que eu quero fazer. Estou cansada de agir como se eu não comesse mais do que um pássaro, e andar quando eu quero correr e dizer que sinto que vou desmaiar depois de uma valsa, quando eu poderia dançar por dois dias e não me cansar. Estou cansada de dizer: “Como você é maravilhoso!”, para enganar os homens que não têm a metade do senso que eu tenho, e estou cansada de fingir que não sei de nada, para que os homens possam me dizer coisas e se sentirem importantes, enquanto o fazem…”

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“Esse é o único pecado imperdoável em qualquer sociedade. Seja diferente e seja condenado! “

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Até você perder sua reputação, você nunca perceberá o fardo que era ou o que a liberdade realmente é. “ O filme e o livro são apaixonantes!

Se você ainda não conhece, não perca mais tempo e veja agora! Não irá se arrepender!

“Dear Scarlett! You aren’t helpless. Anyone as selfish and determined as you are is never helpless. God help the Yankees if they should get you.”

Rhett Butler

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