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fevereiro 2015

Books, Filmes

#Resenha: Garota Exemplar – Gillian Flynn

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“Quando penso em minha esposa, penso sempre em sua cabeça. No formato dela, em primeiro lugar. Quando nos conhecemos, foi na parte de trás da cabeça que eu reparei, e havia algo adorável nela, em seus ângulos. (…) Eu reconheceria sua cabeça em qualquer lugar. E o que havia dentro dela. Também penso nisso: sua mente. Seu cérebro, todas aquelas espirais, e seus pensamentos disparando por essas espirais como centopeias rápidas e frenéticas. Como uma criança, eu me imagino abrindo seu crânio, desenrolando seu cérebro e vasculhando-o, tentando capturar e entender seus pensamentos. No que você está pensando, Amy? A pergunta que eu fiz com maior frequência durante nosso casamento, embora não em voz alta, não à pessoa que poderia responder. Suponho que essas indagações pairem como nuvens negras sobre todos os casamentos: No que você está pensando? Como está se sentindo? Quem é você? O que fizemos um ao outro? O que iremos fazer?”

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A história de Garota Exemplar começa no dia do quinto aniversário de casamento de Amy e Nick Dunne. Começamos a acompanhar os pensamentos de Nick, relembrando o desenrolar dos fatos que os levou ao ponto em que estão em seu casamento. As dificuldades financeiras e um problema familiar levam Nick a decidir pela mudança de Nova Iorque para sua pequena cidade natal no Missouri…levando consigo sua esposa Amy. Esta mudança não estava nos planos de Amy e, logo, ela não escondia sua frustração.

“Eu a estava arrastando, como um homem das cavernas, para uma cidade que ela evitara agressivamente, e a obrigaria a viver no tipo de casa da qual costumava debochar. Suponho que não seja um acordo se apenas um dos dois vê dessa forma, mas nossos acordos eram sempre assim. Um de nós sempre estava com raiva. Normalmente Amy.”

"Existe uma diferença entre realmente amar alguém e amar a ideia dessa pessoa."

“Existe uma diferença entre realmente amar alguém e amar a ideia dessa pessoa.”

Quando, então, Nick chega em casa e a encontra revirada e sem sinais de Amy, a polícia logo passa a considerá-lo o principal suspeito. A necessidade constante que Nick sente em agradar às pessoas faz com que ele tenha reações atípicas e suspeitas no desenrolar da trama, como sorrir na coletiva de imprensa sobre sua esposa desaparecida.

Mas, será que é somente isto? Poderia Nick ser realmente culpado?

nick

A primeira parte do livro faz com que esta dúvida aumente a cada minuto. Os dias passam e as mentiras que Nick disse à polícia continuam a vir à tona. E sua descrição de Amy parece confusa e errônea quando comparadas à versão dela descrita em seu diário.

E aqui temos a primeira sacada genial do livro. Os capítulos são alternados entre Nick e Amy. Nos de Nick, acompanhamos os fatos em tempo real, desde o dia do desaparecimento de Amy e nos dela, temos a leitura de seu diário, que conta desde o início do relacionamento deles.

Enquanto a Amy que Nick descreve é rancorosa e está constantemente insatisfeita com sua relação, a Amy que nos é apresentada no diário é doce e loucamente apaixonada por seu marido, que não a compreende e desconta todas as suas frustações nela.

Qual seria a versão real? E, se Nick é inocente, por que tantas mentiras?

"O amor faz com que você queira ser um homem melhor. Mas talvez o amor, o verdadeiro amor, também lhe dê permissão para que seja somente o homem que é."

“O amor faz com que você queira ser um homem melhor. Mas talvez o amor, o verdadeiro amor, também lhe dê permissão para que seja somente o homem que é.”

E, finalmente, após sete dias de seu desaparecimento, finalmente conhecemos a verdade.

Toda a primeira parte é sensacional, construindo a tensão, nos aproximando dos personagens e criando grandes dúvidas. Mas a segunda parte é o ponto alto do livro.

Amy sem dúvidas é um dos personagens mais bem construídos que já tive o prazer de ler. Desde sua infância, teve que conviver com a sombra da Amy Exemplar, personagem de uma série de livros infantis que seus pais criaram para mostrar como eles esperavam que ela agisse. Ou seja, Amy sempre esteve abaixo das expectativas, sempre tendo que lutar para superar padrões inatingíveis.

“Até Nick, eu nunca me sentira como uma pessoa de verdade, porque sempre fui um produto. Amy Exemplar tinha de ser brilhante, criativa, gentil, atenciosa, esperta e feliz. Só queremos que você seja feliz. Rand e Marybeth diziam isso o tempo todo, mas nunca explicaram como. Tantas lições, oportunidades e vantagens, e eles nunca me ensinaram como ser feliz. Lembro-me de sempre ficar perplexa com as outras crianças. Eu ia para uma festa de aniversário, via as outras crianças rindo e fazendo caretas, e tentava fazer também, mas não entendia por quê. Ficava sentada ali com o elástico do chapéu de aniversário apertando meu queixo, com a cobertura granulada do bolo deixando meus dentes azuis, e tentava entender por que aquilo era divertido.”

Amy é complexa, intensa e passa longe dos estereótipos de personagens femininos a que estamos acostumados. O que torna o livro excepcional!

Se você ainda não leu Garota Exemplar, comece agora! E assista ao filme, que faz jus à obra que representa (apesar do livro ainda ser bem melhor!).

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“Não tenho mais nada a acrescentar. Só queria garantir que eu tivesse a última palavra. Acho que fiz por merecer.”

Books, Séries

#Resenha: Não Sou uma Dessas – Lena Dunham

“Não tem problema mudar de ideia. Sobre um sentimento, uma pessoa, uma promessa de amor. Não posso continuar só para não me contradizer.”

Não sou uma dessas – Lena Dunham

A primeira vez que ouvi falar sobre Lena Dunham foi antes da estreia de Girls, o seriado da HBO, que foi divulgado como a nova Sex and the City. Claro que como boa fã que sou de Carrie Bradshaw, fui conferir, apesar de achar que dificilmente algo seria parecido. E realmente, não havia a menor semelhança! Apesar das duas séries apresentarem a vida de quatro amigas e Nova Iorque como plano de fundo, elas não poderiam estar mais distantes. Sex and the City foi e continua sendo uma das séries mais glamourosas já feitas e Girls nos apresentava um outro extremo, outro tempo e uma realidade tão crua, que praticamente gritava em nossa cara. Com personagens cheios de novos dilemas, uma geração que não tem nenhuma segurança financeira e ainda está longe de descobrir o que realmente quer de sua vida e como fazer isso acontecer, principalmente. Isso incomodou muita gente, talvez por ser uma verdade que ninguém quer ver estampada em uma série de TV. Mas, é daí, que vem toda a sua genialidade!

 

Celebrity Sightings In New York City - May 25, 2012

Lena é criadora, produtora e personagem principal da série. Tudo isso, em um universo tão dominado pelos homens, como os estúdios americanos, já seria um grande feito. Mas é em sua honestidade brutal e visão cruelmente realista de si mesma, que ela consegue causar um grande impacto. Principalmente, com a Hannah, personagem que interpreta. Hannah é infantil, indecisa e muitas vezes absurdamente irritante, apesar de todo o seu potencial e inteligência. E ficava a dúvida, seria ela um espelho da Lena?

A voz de uma geração!

A voz de uma geração!

Eis que surge então seu livro autobiográfico: Não sou uma dessas. E finalmente, essa dúvida seria esclarecida. Junto com muitas outras, como o que ela realmente acha que tem para contar em um livro? E, sim, Hannah e Lena são iguais. E são maravilhosas! Sua sinceridade fica ainda mais evidente em seu livro, que começa já impactante: “Tenho vinte anos e me odeio. Meu cabelo, meu rosto, o formato da minha barriga. A maneira como minha voz soa hesitante e meus poemas soam piegas”.

"As piores coisas que você diz soam melhor que as melhores coisas que as outras pessoas dizem."

“As piores coisas que você diz soam melhor que as melhores coisas que as outras pessoas dizem.”

Em 300 páginas, Lena discute e nos apresenta sua experiência em seções:  Amor & Sexo, Corpo, Amizade, Trabalho e Panorama. Apesar de todas serem excelentes, é quando discute sobre autoestima e percepção de si mesma que ela se torna brilhante. Lena está fora dos padrões de beleza e, apesar de nos contar com detalhes sua relação conturbada com seu peso (trazendo em uma parte até seu diário alimentar!), ela também consegue lidar com tudo isso de uma forma que poucas mulheres, consideradas lindas pelos padrões, conseguiriam. No capítulo em que fala sobre suas cenas de nudez na série e no cinema, isto fica evidente:

“Mais tarde, assistindo à gravação no laboratório de mídia de Oberlin, não me senti envergonhada. Não adorava o que via, mas também não odiava. Meu corpo era só uma ferramenta para contar uma história.”

“Os atores profissionais sempre dão respostas prontas, como “É apenas um trabalho, é muito mecânico” ou “Foi muito legal trabalhar com ele, ele é como um irmão”, mas, como ninguém nunca me acusou de ser profissional ou atriz, serei honesta. É estranho pra cacete.”

“Ficar nua é melhor em alguns dias do que em outros. (…) Mas faço isso porque o meu chefe manda. E o meu chefe sou eu. Quando se está nua, é bom estar no controle.”

"Eu não gosto de mulheres dizendo a outras mulheres o que fazer ou como fazer ou quando fazer."

“Eu não gosto de mulheres dizendo a outras mulheres o que fazer ou como fazer ou quando fazer.”

Ela não é 100% segura de si mesma ou de sua aparência e nem precisa ser. Afinal de contas, quem escolhe o que é ser bonito? E quem disse que isso é o que mais importa?

O livro é honesto, sensível e, só de escrever sobre ele, já tenho vontade de ler de novo! A edição também é linda e cheia de ilustrações. Vale a pena, mesmo que você não goste de Girls ou da Lena. Este livro pode te fazer mudar de opinião!

Meu quote favorito:

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Para finalizar, vi esta declaração da Mindy Kaling sobre ser sempre questionada por ser confiante e achei tão incrível que poderia ter um post só para ela, mas coloco aqui porque me remete aos mesmos sentimentos que tive ao ler este livro.

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Books, Books #Friday3thBooks

#Friday13thBooks – Helter Skelter e Manson

Fato 1: Muito amor por 6º feiras 13! Filmes de terror passando na TV e climão!!!

Fato 2: A história dos assassinatos Tate-LaBianca é muito impressionante e Helter Skelter é um livro sensacional!

Conclusão: Dia perfeito para iniciar o blog!

“When I get to the bottom I go back to the top of the slide 
Where I stop and I turn and I go for a ride
Till I get to the bottom and I see you again. 

                                                                Helter Skelter – Beatles

 2015-02-13 13.14

Ano passado, assistindo ao canal da Tati Feltrin, descobri o livro Helter Skelter, escrito pelo promotor dos casos Tate-LaBianca Vincent Bugliosi, em parceria com Curty Gentry. O livro já me chamou a atenção de cara por ser escrito por alguém que realmente presenciou todo o desenrolar do caso, que teve acesso a todas as evidências e contato com todos os envolvidos.

Sobre o caso:

Na noite de 9 de agosto de 1969, Sharon Tate, esposa de Roman Polanski, e outras quatro pessoas – Jay Sebring, Abigail Folger, Wojciech Frykowski e Steven Parent – foram assassinadas na casa da atriz na Cielo Drive. O caso teve enorme repercussão, principalmente devido a notoriedade das vítimas, como Sharon, que estava grávida de 8,5 meses, Jay Sebring, cabelereiro das principais estrelas de Hollywood e Abigail Folger, herdeira do Café Folger, e também pelos aspectos macabros da cena do crime, com muitas características ritualísticas e crueldade inacreditável.

Sharon Tate

Sharon Tate

Mas, a história não termina por aí e a população Los Angeles assiste chocada a notícia de que outro assassinato havia acontecido na noite do dia 10 de agosto. Desta vez, as vítimas são um casal de classe média alta, Leno e Rosemary LaBianca. Mortos em sua casa, na Waverly Street. Outra cena bizarra! Mas, desta vez, a proximidade destas vítimas, pessoas comuns, traz um medo ainda maior à população. Ninguém estava seguro!

Sharon Tate, Jay Sebring, Abigail Folger, Wojciech Frykowski, Steven Parent, Rosemary e Leno LaBianca.

Sharon Tate, Jay Sebring, Abigail Folger, Wojciech Frykowski, Steven Parent, Rosemary e Leno LaBianca.

A investigação toda teve grandes impasses. Durante meses, os casos não foram conectados, apesar de terem elementos absolutamente semelhantes, como as palavras escritas com o sangue das vítimas nas paredes. Provas foram corrompidas e evidências, como a arma do crime, levaram meses para serem encontradas, por falta de comunicação entre os departamentos. Somente em novembro, o caso começaria a ser desvendado. Entram em cena, então, a Família Manson e seu guru, Charles Manson – um dos personagens mais bizarros e populares da história.

Charles Manson

Charles Manson

O caso causou uma comoção sem igual! Jovens “hippies”, normais e bonitos, que poderiam ser seus vizinhos, boys and girls next door, completamente controlados por um mentor, ao ponto de matar pessoas completamente desconhecidas e sem apresentar nenhum pingo de remorso, inclusive dispostos a levar toda a culpa por ele. O poder de Charles Manson vai muito além disso. Performances intensas no tribunal, seguidores fiéis, que acampam em frente ao tribunal em protesto, entrevistas na Rolling Stones, uma filosofia baseada em músicas dos Beatles e Apocalipse – elementos que o fazem virar um ícone cultural, com centenas de jovens se identificando e até mesmo abandonando tudo para virar parte da Família.

Susan Atkins, Patricia Krenwinkel e Leslie Van Houten.

Susan Atkins, Patricia Krenwinkel e Leslie Van Houten.

O livro é sensacional, Bugliosi nos leva através da história, primeiro pela investigação da polícia e depois seguindo todos os seus passos ao ser chamado para ser o promotor do caso. Temos acesso a provas que não foram admissíveis no julgamento, dezenas de depoimentos e casos provavelmente interligados. O julgamento em si, desde a luta para provar uma teoria tão inacreditável sobre o motivo dos assassinatos, como condenar Charles, sendo que ele não estava presente enquanto os crimes foram cometidos, as ameaças da família e as mortes durante o julgamento, são impressionantes. São quase 700 páginas, mas passa em um minuto.

2015-02-13 13.13

 

A biografia de Charles Manson – Manson, de Jeff Gunn, publicada pela Darkside Books, nos leva a fundo em sua vida, desde a história conturbada de sua mãe, seus traumas de infância, até suas diversas passagens por reformatórios e prisões. Tudo isto, nos mostra melhor, como ele desenvolveu um poder de persuasão tão grande. Quais suas influências, suas motivações, suas ambições tão grandes e despedaçadas. Mas, nada que justifique suas ações! O livro traz uma descrição incrível da sociedade na época. Todos os eventos e tensões sociais que a permeavam e como tudo isso criou um ambiente perfeito para um homem com suas habilidades de convencimento. Como o próprio autor diz: “Charles Manson sempre foi o homem errado no lugar certo e na hora certa”. O capítulo Berkeley e o Haight já valeriam a leitura toda. Diferente de Helter Skelter, Manson conta a história de maneira linear e não se preocupa em ser ater somente aos fatos devidamente comprovados, como, por exemplo, a parte em que menciona que Charles teria ido à casa de Sharon Tate, depois do crime, durante a madrugada, para organizar como ele queria. Um fato que não tem testemunhas oculares, nem evidências físicas. Mas que faz sentido!

 MANSON

Fica a sugestão de dois livros excepcionais sobre uma história tão assustadora, com personagens tão notórios, que não envelhece jamais!

Nota do blog:

  • Helter Skelter – 05/05
  • Manson – 04/05

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P.S.: Assistam ao filme Helter Skelter (2004), dirigido por John Gray. Sensacional! Susan Atkins do filme me mata de medo!!!! O documentário The Manson Women também vale muito a pena!

Manson Family

Manson Family